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sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Peter Singer, um dos mais importantes e controversos filósofos vivos.

" Nós costumamos dar muita ênfase ao ato de matar alguém, mas fazemos muito pouco para ajudar as pessoas em situação de pobreza extrema, para impedir a morte de crianças em países pobres por subnutrição ou doenças. Isso mostra que estamos errando no modo como pensamos sobre as consequências de nossas ações. Porque, nos dois casos, o resultado é o mesmo: alguém morre. "

"A filosofia é hoje mais importante do que jamais foi", afirma Peter Singer

Em entrevista ao site de VEJA, o filósofo Peter Singer afirma que os avanços da ciência irão tornar as discussões éticas cada vez mais fundamentais, e explica suas ideias sobre vegetarianismo, pobreza extrema e eutanásia

Guilherme Rosa
Filósofo Peter Singer
Peter Singer já foi considerado um dos mais importantes e controversos filósofos vivos. Sua ideias chegaram a ser comparadas ao nazismo e o levaram a ser chamado de o homem mais perigoso da Terra. Em 2004, no entanto, ele foi eleito o Humanista do Ano pelo Conselho de Sociedades Humanistas Australiano (Joel Travis Sage)
O australiano Peter Singer é uma figura rara: um filósofo que atrai a atenção de multidões. Seu livro Libertação animal (Ed. WMF Martins Fontes), de 1975, foi um dos responsáveis por dar início aos movimentos modernos de defesa dos animais, influenciando um enorme número de ativistas do vegetarianismo ao redor do mundo. Ao mesmo tempo, suas ideias sobre a eutanásia também movem um grande público, mas na forma de acalorados protestos realizados em suas palestras. Os atos costumam ser organizados por grupos de defesa dos portadores de deficiência física, que encontram em seus escritos ecos da eugenia nazista.
Professor de bioética na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, Singer analisa questões éticas — como aborto, assassinato, desigualdade e direitos dos animais —, partindo do ponto de vista de que todo ser vivo capaz de sofrer e sentir dor deve ter seus interesses considerados. Isso leva o filósofo a afirmar que o consumo de carne e a maior parte das experiências científicas com animais são moralmente errados. Nos últimos anos, Singer tem se envolvido com uma série de organizações de caridade, a fim de ajudar populações pobres ao redor do planeta. Mas também é esse raciocínio que, levado ao extremo, faz Singer chegar a conclusões chocantes, como afirmar que a vida de um cachorro tem o mesmo valor moral que a de um humano recém-nascido.
Peter Singer esteve no Brasil para participar da série de palestras Fronteiras do Pensamento. Em entrevista ao site de VEJA,  afirmou que os avanços científicos fazem com que as questões éticas se tornem cada vez mais importantes e comentou avanços recentes como a carne feita em laboratório, as descobertas sobre a consciência dos animais e o desenvolvimento de inteligência artificial:
Seus argumentos costumam despertar reações apaixonadas — para o bem ou para o mal. Pessoas que não gostam do que o senhor diz já o chamaram de Dr. Morte, nazista e até de o homem mais perigoso do mundo. Ao contrário, pessoas que gostam de suas colocações já o chamaram de o homem mais ético do planeta. Por que seu trabalho costuma ter esse tipo de resposta extremada? Penso que é porque meu campo de estudo é a ética, e as pessoas têm visões muito diferentes quanto a esse tema. Particularmente, eu sigo a lógica de meus argumentos até o fim, mesmo que as conclusões entrem em confronto com o que diz o senso comum. Uma das coisas de que me chamam é de controverso — e isso é verdade. Isso acontece porque eu afirmo que a visão moral comum está, normalmente, errada. As pessoas não parecem ter realmente pensado no assunto, feito as perguntas éticas fundamentais.
Mas o senhor acha que essas reações surgem simplesmente por causa das discussões éticas gerais ou porque o senhor tem posições firmes em temas como aborto, eutanásia e direitos dos animais?  É claro que eu podia discutir a ética no nível das generalidades, nunca atingindo esses temas mais difíceis. Aí, eu não seria controverso. A maioria das pessoas não teria nenhum interesse no que digo, talvez nem me entendessem — exceto outros filósofos. Quando estudamos a ética prática não podemos evitar esses tópicos. Não é possível evitar perguntas sobre vida e morte. Você inevitavelmente terá de questionar: por que matar um ser vivo é errado? É pior matar um ser do que outro? Por exemplo, eu até poderia não ter estudado a ética da nossa alimentação a base de carne, mas isso me pareceria muito estranho, porque eu estudo justamente a ética prática — e comer é algo que fazemos todos os dias.
Por que é importante discutir questões éticas? A pergunta responde a si mesma. Discutir por que alguma coisa é importante já é, em si, uma pergunta ética. Você não pode dizer se alguma coisa é importante se não tiver alguma ideia de valores morais. Se você pensar que o ato de prevenir a morte de um milhão de pessoas de fome é mais importante do que o ato de coçar o seu pé, isso já é um valor ético. A partir daí, você já pode começar a se fazer perguntas éticas: por que tenho esses valores? Será que não existem outros valores melhores? A ética é importante porque, quando pensamos no que devemos fazer e como queremos viver, já estamos fazendo ética. Isso é inevitável. A pergunta importante não é se estamos fazendo ou não ética, mas se estamos fazendo isso do modo certo ou errado.
Quais seriam as questões éticas mais importantes de nosso tempo? Sem dúvida nenhuma, a pobreza global é um dos grandes problemas sobre os quais devemos nos deter. Também penso nas mudanças climáticas — um dos grandes desafios morais que teremos de enfrentar nos próximos dez ou vinte anos. É claro, também tenho que citar o tratamento que damos aos animais, um tema que discuti durante toda minha carreira, mas que ainda é muito importante. Há outros temas que eu devo mencionar, como o risco de extinção da espécie humana — que deveria ser reduzido ao máximo — e a seleção genética, que nos dá a possibilidade de melhorar geneticamente nossa espécie. São questões que estão sendo trazidas à tona neste século, com os avanços científicos.
Então o desenvolvimento da ciência não ameaça tornar a filosofia obsoleta? A filosofia é hoje mais importante do que jamais foi. E os cientistas que pensam que a filosofia não importa certamente não têm um grande entendimento do que é a filosofia. Eles costumam pensar que é possível chegar, de modo científico, aos juízos de valores. Mas não dá para fazer isso a partir de descrições do mundo — que é o que a ciência faz. A descrição do mundo e os nossos valores são duas coisas diferentes. Quando estamos pensando em valores, estamos fazendo filosofia.
O senhor escreveu sobre muitos temas em sua carreira, mas se tornou particularmente conhecido por causa de sua defesa dos animais. Por que esse campo de estudos se tornou mais conhecido que todos os outros? Esse é o campo da filosofia em que eu fui um pioneiro. Eu escrevi a primeira discussão filosófica moderna sobre a ética de tratamento aos animais, e a conclusão foi que deveríamos fazer o contrário do que fazemos hoje em dia. Desde então, surgiram muitos outros filósofos que contribuíram para esse campo, mas meu livro Libertação Animal é visto como o texto fundador desse movimento.
Por que alguém deveria se preocupar eticamente com um animal? Afinal, os animais não se preocupam eticamente com os seres humanos. Realmente, eles não se preocupam. Mas bebês e crianças pequenas também não têm preocupações éticas — e todos concordariam que devemos nos preocupar com eles eticamente. Se alguém quisesse causar dor numa criança por diversão, iríamos pensar que é errado, mesmo que a criança ainda não seja capaz de pensar eticamente sobre as outras pessoas. Acho que o mesmo vale para os animais. Eles são capazes de sofrer, sua vida pode ser boa ou má. E mesmo assim nós usamos bilhões deles para motivos fúteis, sem levar em conta seus interesses. Se há sofrimento acontecendo — que nós estamos causando — estamos diante de uma questão ética importante.
Mas como saber quais seres vivos importam eticamente? O senhor defende os direitos das plantas, dos insetos e das bactérias? Os seres com que devemos nos importar são aqueles que podem sofrer ou apreciar a vida, que podem experimentar dor ou prazer, que têm experiências conscientes. Isso certamente não inclui as árvores, e também duvido que inclua os insetos. Mas certamente inclui os vertebrados e provavelmente alguns invertebrados, como o polvo — que estudos apontam como um ser consciente.
Mas o que faria essa diferença? A presença de um sistema nervoso? É por causa disso que falei sobre os vertebrados: seu sistema nervoso é mais parecido com o nosso, tem uma organização central. Mas não acho que essa deve ser a única identificação. O comportamento do polvo, por exemplo, é tão complexo que nos leva a ver indícios de consciência. Se ela evoluiu no polvo, parece que foi por um caminho evolutivo diferente, que não depende de um sistema nervoso como o nosso. Eu não sei dizer onde exatamente as fronteiras estão. O que eu posso dizer é que devemos ter uma mente aberta, e se tivermos evidência de que algum tipo de ser é consciente, o que fazemos com ele passa a ter significância moral.
Mas o senhor não acha que a vida humana tem mais valor que a de um peixe, por exemplo? Acho que existe uma diferença entre seres autoconscientes e seres que apenas têm consciência, e essa diferença é relevante quanto ao erro de matar esse ser. É mais sério matar um ser autoconsciente, que recorda o seu passado e se projeta no futuro, mas não acho que o sofrimento desse ser tenha valor maior do que o de um que apenas é consciente. Não defendo que tudo que aconteça contra um ser autoconsciente seja mais importante — apenas o assassinato. Veja bem, o princípio moral básico para mim é o da igual consideração de interesses, levar na mesma conta todos os interesses envolvidos em determinada ação. Assim, se eu e um cachorro sentimos a mesma quantidade de dor, nosso interesse em não sentir dor é similar. Mas se eu for autoconsciente, eu tenho um interesse maior em continuar vivendo. Eu posso fazer planos, posso buscar objetivos. Assim, eu tenho mais a perder com a minha morte do que um animal que vive apenas no presente, cujos interesses são, basicamente, encontrar abrigo, comida, segurança.
"Os frangos são mantidos em lugares apertados e tão lotados que não conseguem se movimentar, abrir suas asas. Eles passam a vida inteira estressados", diz Singer
Então seria correto matar e comer um frango, que parece não ter autoconsciência, se não causarmos nenhuma dor? Se ele tiver tido uma boa vida, não vejo problemas. O problema não é só matar os animais. Nós não podemos apoiar os tipos de fazendas de criação que existem hoje em dia. Os frangos, por exemplo, são mantidos em lugares apertados e tão lotados que não conseguem se movimentar, abrir suas asas. Eles passam a vida inteira estressados. Mas se ele tiver vivido uma boa vida, e se sua morte for instantânea, sem nenhuma dor — e se assumirmos que os frangos realmente não são seres autoconscientes – eu não tenho uma grande objeção contra comê-lo. Eu sou vegetariano há mais de 30 anos, não tenho nenhum desejo de comer frango, mas se alguém fizer isso nessas condições, acho que não teria nenhum argumento contra.

O senhor não acha que são muitas condições? Sem dúvida, são muitas condições. Elas são muito diferentes do modo como os frangos são produzidos hoje em dia e tornam muito difícil produzi-los de modo comercial.
Mas a carne não tem um valor nutritivo importante? Seria errado comer carne para melhorar a nutrição de uma criança necessitada? Acho que isso faz muita diferença. Quando falo sobre vegetarianismo, eu falo para as pessoas que vivem em grandes cidades, como São Paulo, onde podemos andar até um supermercado e comprar muitas alternativas saudáveis aos produtos animais. Mas se você estiver em um país pobre, e tiver dificuldades em conseguir uma dieta saudável para a sua família, eu não diria que é errado você comer um frango.
No começo de agosto, pesquisadores anunciaram a criação do primeiro hambúrguer feito em laboratório a partir de células-tronco de gado. O senhor comeria essa carne artificial? Eu ficaria muito feliz em comer o hambúrguer artificial, porque nenhum animal teria sofrido para ele chegar à minha mesa. Eu não me importo nem um pouco com o fato de ele ser feito a partir de células tronco. Minha preocupação moral não é com células, mas com seres conscientes. Além disso, o hambúrguer é muito melhor para o meio ambiente do que a carne vinda dos animais. Infelizmente, por enquanto, ele é apenas uma prova do conceito, mas espero que algum dia ele se torne comercialmente viável.
Então o senhor estaria disposto a colocar a carne de volta em sua dieta? Eu não sinto nenhuma falta de comer carne. Eu experimentaria o hambúrguer para ver qual o gosto — porque eu estou curioso. Se gostasse, poderia até experimentar mais regulamente, mas no momento não sinto nenhuma necessidade de comer carne.
Recentemente, o chef brasileiro Alex Atala participou de um encontro na Europa, onde matou e cozinhou uma galinha no palco, em frente à plateia. Parte do publico reagiu com revolta à morte da ave. Como o senhor vê essa reação? É uma completa hipocrisia. Muito provavelmente, as pessoas que reagiram assim não são vegetarianas. O que eles estão dizendo é que querem que alguém mate o frango, mas não lhes mostre a ação. Sabe o que isso me lembra? Eu não gosto de traçar paralelos entre o que fazemos com os animais e o holocausto – acho que existem diferenças muito importantes – mas isso me lembra dos alemães que, durante o nazismo, preferiam não ficar sabendo o que era feito com os judeus. A atitude é semelhante.

Saiba mais

UTILITARISMO
Tradição filosófica inaugurada pelo inglês Jeremy Bentham no final do século XVIII. Um dos pilares dessa tradição é a ideia de que o ato moralmente justo é  aquele que resulta em um acréscimo da felicidade geral, e na diminuição da dor. Peter Singer segue uma versão mais moderna dessa escola de pensamento, conhecida como utilitarismo preferencial. Nesse caso, o ato moralmente justo seria aquele que leva em conta a preferência de todos os seres vivos envolvidos, satisfazer a maior parte deles.
Essa lógica de levar em conta todos os interesses envolvidos em uma ação e decidir quais deles são mais importantes não faz o raciocínio moral se parecer com um cálculo matemático? Bom, eu sou um utilitarista. E o utilitarismo, sem dúvida, leva números em conta. Mas acho que seria uma loucura não levar. Se eu tivesse que escolher entre salvar a vida de mil pessoas ou salvar a vida de apenas uma, ignorar esses números seria errado. Mas o utilitarismo não é apenas matemático. Ele traz questões sobre moral e valores, leva em conta tanto a empatia quanto a razão matemática. E acho que, com o passar dos anos, o modo utilitarista de pensar se tornará mais importante.
Por que o senhor diz isso? Conforme a sociedade vai se tornando mais secular, as pessoas passam a não aceitar mais de modo tão imediato os ensinamentos religiosos e começam a pensar por si mesmas. A moral religiosa tende a ser focada em regras simples, como os Dez Mandamentos, porque esse era o modo mais simples de ensinar bom comportamento há milhares de anos. Hoje, podemos deixar essa regras simples para trás. Precisamos pensar de modo mais profundo sobre as questões éticas fundamentais.
Essa lógica utilitarista não justificaria as pesquisas científicas com animais? Afinal, elas podem salvar muitas vidas. De fato, algumas pesquisas se justificam por essa lógica. Essa é uma das questões mais difíceis no campo do bem-estar animal. Nós devemos examinar cada experimento em particular para ver se ele tem essa justificativa. E eu acho que muitos — provavelmente a maioria — não têm. Muitos deles são baseados na ideia de que o sofrimento dos animais não deve ser levado em conta, o realmente importante seria o avanço no conhecimento — o que não é verdade. Mas existem alguns casos nos quais os cientistas dão o mesmo valor ao sofrimento dos animais que dariam ao sofrimento humano, e chegam à conclusão de que os benefícios da pesquisa seriam tão grandes que ela se justifica. Como um utilitarista, eu tenho que admitir que isso é possível.
Singer diz que a maior parte das pesquisas científicas feitas com animais não leva em conta seu bem-estar. No entanto, ele reconhece que algumas pesquisas desse tipo podem ser justificadas, se ajudarem a salvar vidas.
No livro Ética Prática, o senhor diz que os cientistas que estivessem dispostos a realizar experimentos com animais deveriam também estar dispostos a realizar os mesmo estudos em bebês com doenças mentais severas. Esse, na verdade, é um modo de desafiar a percepção comum dos cientistas, um modo de fazê-los pensar se não estão achando que o sofrimento dos animais é menos importante que o dos homens. Se eu falasse que os cientistas deveriam estar dispostos a fazer suas pesquisas com seres humanos normais, eles poderiam argumentar que essas pessoas sofreriam mais durante as experiências, pois saberiam o que vai lhes acontecer, lembram de seu passado e pensam no futuro, podem ficar traumatizadas e, se morrerem, estaremos matando um ser autoconsciente. Mas se imaginamos um ser humano que esteja no mesmo nível mental que um animal, isso ilumina os fatores para analisarmos essa questão. Uma pesquisa científica estará justificada se o cientista realmente der o mesmo peso aos interesses dos animais que dá aos seres humanos.
O senhor de fato acredita que não há um valor intrínseco na vida humana que a torna diferente? Penso que o cristianismo dá muita ênfase à santidade da vida humana, e meus pensamentos são vistos como afronta a isso. Mas se você olhar para outras culturas humanas, que não foram influenciadas pela tradição judaico-cristã — muitas delas defendiam o infanticídio como uma coisa normal e até sensível de ser feita. Se a criança tivesse alguma deficiência severa, eles consideravam que seria melhor não deixar essa criança viver. Mesmo hoje, muitas pessoas afirmariam ser uma tragédia menor a morte de uma criança com uma doença severa incurável do que a de um ser humano normal de qualquer idade. Mas também existe esse ensinamento religioso sobre a santidade de todas as formas de vida humana que as pessoas se recusam a abandonar.
Mas não são só os religiosos que se colocam contra seu ponto de vista. Grupos que defendem os direitos de portadores de deficiência costumam organizar protestos em suas palestras, por exemplo. Eu costumo sofrer dois tipos de oposição forte: dos grupos religiosos e das pessoas portadoras de deficiência. A maioria desses últimos certamente não leu os meus livros ou entendeu errado o que escrevi. Eles interpretaram que eu sou hostil às pessoas com deficiência — é claro que isso não é verdade. Acho que seus interesses valem tanto quanto o de todas as outras pessoas. Mas imagine um caso onde um bebê recém-nascido apresenta uma doença severa incurável, que lhe causar muito sofrimento enquanto estiver vivo. Os médicos deveriam fazer de tudo ao seu alcance para estender a vida dessa criança? Muitas pessoas que se viram, como pais, nessa condição, optaram por não usar toda a tecnologia médica disponível para salvar a criança. Eu me envolvi nessa questão ao afirmar que, se a retirada do tratamento não matar imediatamente o bebê, não seria errado fazer algo ativamente contra sua vida. Eu não vejo diferença entre omitir ajuda e dar uma injeção letal. As duas dão o mesmo resultado: a morte da criança. Foi simplesmente isso que escrevi sobre o assunto, e muitas pessoas não gostaram. Mas não é como se eu tivesse alguma coisa contra as pessoas com deficiência, de jeito nenhum.
Esse raciocínio sobre as semelhanças entre omissão de ajuda e assassinato também está na base de seus argumentos sobre a obrigação moral de acabar com a pobreza extrema. Como uma linha de pensamento que leva à defesa da eutanásia também leva à defesa da caridade? Nós costumamos dar muita ênfase ao ato de matar alguém, mas fazemos muito pouco para ajudar as pessoas em situação de pobreza extrema, para impedir a morte de crianças em países pobres por subnutrição ou doenças. Isso mostra que estamos errando no modo como pensamos sobre as consequências de nossas ações. Porque, nos dois casos, o resultado é o mesmo: alguém morre. Nessa questão, eu traçaria uma linha para distinguir entre o julgamento da ação e de seu agente. As ações de assassinato e omissão são igualmente ruins, mas, por causa da diferença de motivação, os agentes de uma e outra não são moralmente comparáveis. Se seguirmos o tipo de julgamento moral que leva em conta regras estritas, quem se omite não está fazendo nada de errado. Mas de um ponto de vista utilitário, existe uma diferença.
O que o senhor defende que seja feito então? Acho que as pessoas deveriam doar parte de seu dinheiro para instituições de caridade. O dinheiro não deveria ir para qualquer caridade, mas para aquelas que realmente demonstrarem que são capazes de ajudar os mais pobres. Não acho que dar esmola para mendigos ou pedintes na rua é um jeito efetivo de combater aa pobreza, uma vez que não sabemos qual será o destino do dinheiro. Precisamos ser inteligentes em nossas doações, procurando evidências sobre como nosso dinheiro fará a maior diferença possível.
O senhor fala sobre a necessidade de levarmos em conta todos os seres que possuem algum tipo de preferência. Se no futuro, os seres humanos conseguirem desenvolver algum tipo de inteligência artificial, o senhor defenderia os interesses dos robôs? A questão central deve ser a consciência. Se o ser tiver preferências conscientes — e tivermos algum modo de saber que ele tem experiências mentais como as nossas — então deveríamos tratá-los como todos os outros seres conscientes. Não existe relevância no fato de eles serem sintéticos ou naturais, sua capacidade de sentir é o que importa.

domingo, 20 de janeiro de 2013

FOME - O problema não é a produção mas o desperdício!


Metade da comida do mundo vai parar no lixo, diz relatório


As três matérias abaixo comprovam cientificamente, MAIS UMA VEZ, que o problema da nossa humanidade e sobretudo das nossas elites econômicas e governamentais,mas também de cada um de nós, É MORAL!!!

É inacreditável e inaceitável que todos nós estejamos escolhendo sistemáticamente a irresponsabilidade e o egoismo de simplesmente deixar a comida estragar  e matar de fome nossos irmãos humanos planeta a fora,além de representar também um forte ato de destruição ambiental suicída!!! ESTAMOS TODOS EM FLAGRANTE DELITO DE CRIME LESA HUMANIDADE!!!

Por favor leiam com bastante cuidado os textos abaixo e divulguem em todas mídias sociais que tiverem acesso com urgência,temos que trabalhar para acordar e mobilizar a humanidade, e convocar as elites econômicas e governamentais à responsabilidade. Façamos um planejamento  preciso 
(calorias e valor nutricional) e só compremos aquilo que realmente precisamos e vamos comer;pratiquemos assim a verdadeira cidadania,consideração e  amor ao próximo. SEJAMOS CONSCIENTES DE NOSSOS ATOS E EVOLUAMOS!!!

Metade da comida do mundo vai parar no lixo, diz relatório
BBC BRASIL Atualizado em  10 de janeiro, 2013 - 10:13 (Brasília) 12:13 GMT
 
Um relatório de uma organização britânica indica que até metade de toda a comida produzida a cada ano no mundo, ou cerca de dois bilhões de toneladas, vão parar no lixo.
 
O documento, intitulado Global Food; Waste not, Want not ("Alimentos Globais; Não Desperdice, Não Fique Sem", em tradução livre), diz que o desperdício está ocorrendo devido a uma série de motivos, entre eles as condições inadequadas de armazenamento,consumidores que compram sem necessidade e a adoção de prazos de validade demasiadamente rigorosos.
 
Outro problema é a preferência dos consumidores por alimentos com um formato ou cor específicos. O estudo diz que até 30% das frutas, verduras e legumes plantados na Grã-Bretanha sequer são colhidos por causa de sua aparência.
O desperdício de alimentos também implica em desperdício de recursos usados para a produção deles, como água, áreas para agricultura e energia, alertou o relatório publicado pela Institution of Mechanical Engineers, uma organização que representa engenheiros mecânicos e reúne cem mil membros no Reino Unido.
 
Promoções nos supermercados e preferências dos consumidores agravaram o problema
 
Ofertas nos supermercados
 
A ONU prevê que até 2075 a população mundial chegue a 9,5 bilhões de pessoas, um acréscimo de 3 bilhões em relação à população atual, o que reforça a necessidade de se adotar uma estratégia para combater o desperdício de alimentos e, assim, tentar evitar o aumento da fome no mundo.
 
De acordo com o relatório, o equivalente a entre 30% e 50% dos alimentos produzidos no mundo por ano, ou seja, entre 1,2 bilhão e 2 bilhões de toneladas, nunca são ingeridos.
 
Além disso, nos Estados Unidos e na Europa, metade da comida que é comprada acaba sendo jogada fora.
 
"A quantidade de comida desperdiçada e perdida no mundo é assombrosa. Isto é comida que poderia alimentar a crescente população mundial além de todos aqueles que atualmente passam fome."
Tim Fox, diretor da Institution of Mechanical Engineers
 
Tim Fox, diretor de Energia e Meio Ambiente da Institution of Mechanical Engineers, disse que o desperdício é "assombroso". "Isto é comida que poderia alimentar a crescente população mundial além de todos aqueles que atualmente passam fome."
"As razões desta situação variam das técnicas insatisfatórias de engenharia e agricultura à infraestrutura inadequada de transporte e armazenamento, passando pela exigência feita pelos supermercados de que os produtos sejam visualmente perfeitos e pelas promoções de 'compre um, leve outro grátis', que incentivam os consumidores a levar para casa mais do que precisam", disse.
 
Água
O relatório alertou que atualmente 550 bilhões de metros cúbicos de água estão sendo desperdiçados na produção de alimentos que vão para o lixo.
 
E o problema pode se agravar. Segundo a Institution of Mechanical Engineers, o consumo de água no mundo chegará a até 13 trilhões de metros cúbicos por ano em 2050 devido ao crescimento da demanda para produção de alimentos.
 
Isso representa até 3,5 vezes o total de água consumido atualmente pela humanidade e gera o temor de mais escassez do recurso no futuro.
O alto consumo de carne tem grande influência nesse aumento de demanda, visto que a produção de carne exige muito mais água do que a produção de alimentos vegetais.
 
"À medida que água, terra e energia passam a ser mais disputados devido à demanda da humanidade, os engenheiros tem um papel crucial a desempenhar no sentido de prevenir a perda e o desperdício de alimentos, desenvolvendo formas mais eficientes de produção, transporte e armazenamento", disse Fox.
 
O desperdício de até 40% de alimentos custa caro aos EUA
Publicado em agosto 28, 2012 por HC

 
 
Os americanos desperdiçam até 40% de sua comida a cada ano, enchendo aterros sanitários com pelo menos US$ 165 bilhões em hortifrutigranjeiros e carnes numa época em que centenas de milhões de pessoas passam fome em todo o mundo, segundo análise divulgada na terça-feira pelo Conselho de Defesa dos Recursos Naturais (NRDC, na sigla em inglês). Matéria do Washington Post, em O Estado de S.Paulo.

A análise, uma compilação de estudos e estatísticas, revela que há desperdício desde a fazenda até o garfo, mesmo agora que a seca ameaça elevar o preço dos alimentos. Os recursos que o governo dedicou para identificar onde estão as deficiências e como combatê-las são irrisórios em comparação com os esforços em curso na Europa.

Por enquanto, os preços americanos relativamente baixos facilitam o desperdício de comida, o que pode explicar a razão porque a família americana média de quatro pessoas termina jogando no lixo o equivalente a US$ 2.275 em comida todo ano, diz o relatório. Essa tendência perdulária piorara como tempo e hoje o americano médio desperdiça 10 vezes mais comida do que um consumidor do Sudeste Asiático e 50% mais do que nos anos 70.

“Não surpreende que a comida seja o maior componente do lixo sólido nos aterros”, disse Dana Gunders, cientista do NRDC que assina o estudo. A frustração dos ambientalistas é que recursos naturais – água, terra e energia – são usados para produzir todo esse alimento não consumido. “Estamos jogando fora quase a metade da comida que cruza nosso caminho”, disse Gunders. “É dinheiro jogado no ralo.”

A análise cita pontos fracos em cada etapa da cadeia produtiva. Na fazenda, os plantadores, às vezes, não colhem alimentos em razão dos preços ruins do mercado, que dificultam a recuperação dos custos.

O mercado também obriga os plantadores a selecionar as plantas que colhem, removendo alimentos com manchas ou outros defeitos cosméticos. O relatório cita um fazendeiro que estima que 75% dos pepinos que ele joga fora são comestíveis e uma empresa embaladora de tomate que afirma poder encher um caminhão de lixo com cerca de 10 mil quilos de tomates descartados a cada 40 minutos.

Quando bens perecíveis são embarcados de navio, eles também são rejeitados por distribuidores responsáveis por levá-los ao comércio local e por bancos de alimentos, que, às vezes, recebem quantidades maiores do que podem usar.

No entanto, muitos estudos sugerem que a maior parte do desperdício ocorre nas lojas e casas. O governo estima que supermercados percam US$ 15 bilhões por ano só em frutas e legumes não vendidos. O NRDC atribui parte dessas perdas ao excesso de produtos estocados para impressionar consumidores.

Em restaurantes, que também sofrem prejuízos com o desperdício de alimentos, tamanhos de porções que excedem os recomendados pelo governo desempenham papel importante. Ano passado, associações industriais lançaram uma iniciativa para ajudá-los a doar mais comida e reduzir os 36 milhões de toneladas de alimentos enviados aos lixões a cada ano.

A Europa, porém, saiu na frente. O Parlamento Europeu adotou uma resolução que cortará o desperdício pela metade até 2020. Na Grã-Bretanha, há cinco anos, alguns varejistas já estão usando promoções para desencorajar consumidores a comprar mais do que precisam – do tipo “compre a metade”, em vez da tática de “compre um e leve dois” usada nos EUA.

Segundo pesquisa do Shelton Group, 39% dos americanos classificaram o desperdício de comida como sua principal “culpa” – bem acima de deixar as luzes acesas ao sair (27%) ou não reciclar (21%). Suzanne Shelton, fundadora do grupo, disse que as pessoas têm as melhores intenções ao encher as sacolas de supermercado, mas a vida acaba interferindo. “Ficamos atolados no trabalho e nos vemos comprando uma pizza na volta para casa”, disse. “No fim de semana, jogamos fora a comida estragada da geladeira.” / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

 
http://www.sosclimaterra.org/

O DESPERDÍCIO DE ALIMENTOS NO BRASIL

O Brasil é o quarto produtor mundial de alimentos (Akatu, 2003), produzindo 25,7% a mais do que necessita para alimentar a sua população (FAO). De toda esta riqueza, grande parte é desperdiçada.
Segundo dados da Embrapa, 2006, 26,3 milhões de toneladas de alimentos ao ano tem o lixo como destino. Diariamente, desperdiçamos o equivalente a 39 mil toneladas por dia, quantidade esta suficiente para alimentar 19 milhões de brasileiros, com as três refeições básicas: café da manhã, almoço e jantar (VELLOSO, Rodrigo. Comida é o que não falta. Superinteressante. São Paulo: Ed. Abril, nº 174, março/2002).
De acordo com o caderno temático “A nutrição e o consumo consciente” do Instituto Akatu (2003), aproximadamente 64% do que se planta no Brasil é perdido ao longo da cadeia produtiva:
  • 20% na colheita;
  • 8% no transporte e armazenamento;
  • 15% na indústria de processamento;
  • 1% no varejo;
  • 20% no processamento culinário e hábitos alimentares.
Segundo Instituto Akatu, 2004: Os números supracitados fazem do Brasil um dos campeões mundiais de desperdício. Analisando estes dados de uma forma mais simples, isso significa que uma casa brasileira desperdiça, em média, 20% dos alimentos que compra semanalmente, o que remete a uma perda de US$ 1 bilhão por ano, ou o suficiente para alimentar 500 mil famílias.
Prova deste desperdício financeiro é ressaltada pela 8ª Avaliação de Perdas no Varejo Brasileiro, em 2007, que demonstra que os supermercados perderam 4,48% de seu movimento financeiro, em perecíveis. Além disso, uma estimativa realizada pela Coordenadoria de Abastecimento da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo indicara que perdas na cadeia produtiva dos alimentos equivalem a 1,4% do PIB – Produto Interno Bruto.

sábado, 3 de novembro de 2012

A HUMILHAÇÃO DO EGO. porta para a consciência.

A expansão da consciência ou do ideal de bondade humana passa, necessariamente, pela eliminação do Ego. Enquanto a sociedade insiste na exaltação da personalidade através da afirmação do poder, a consciência permanece envolvida num véu ego
cêntrico e impede a visão do mundo como um todo que interage entre seus elementos e a espiritualidade – presente em todo lugar e em tudo.
Então Yehuda diz:” Momentos de constrangimento são apenas momentos de mudança acelerada” e que “Uma das ferramentas do combate ao EGO é abrir-se a ser humilhado. Dessa forma, o ego se torna uma caminhada e a Luz da nossa alma, que geralmente é coberta pelo ego começa a brilhar”.

 Foto: A expansão da consciência ou do ideal de bondade humana passa, necessariamente, pela eliminação do Ego.  Enquanto a sociedade insiste na exaltação da personalidade através da afirmação do poder, a consciência permanece envolvida num véu egocêntrico e impede a visão do mundo como um todo que interage entre seus elementos e a espiritualidade – presente em todo lugar e em tudo.
Então Yehuda diz:” Momentos de constrangimento são apenas momentos de mudança acelerada” e que “Uma das ferramentas do combate ao EGO é abrir-se a ser humilhado.Dessa forma, o ego se torna uma caminhada e a Luz da nossa alma, que geralmente é coberta pelo ego começa a brilhar”.
Bom dia!



Somos espíritos viajantes na nave mãe Terra em busca do ideal da suprema beleza. TODOS destinados à vida digna, farta, feliz, inteira. Cabe à humanidade prover essa condição de maneira equanime a todos os espíritos (encarnados ou em vida espiritual), para que a transformação planetária aconteça de forma harmoniosa e em paz.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Nos limites da terra

 
A história do ambientalista Lester Brown, fundador do instituto Earth Policy, em Washington, e ex-analista da Secretaria de Agricultura do governo americano, começa numa pequena fazenda no sul de New Jersey, onde ele plantava tomates. Hoje com 77 anos, Brown ainda se orgulha de como aos 17 começou com o irmão mais novo, Carl, de 14, o cultivo que produziria 700 t de tomate numa safra particularmente boa em 1958. "Foi uma adolescência bem divertida", lembra o economista, um dos responsáveis pela popularização da ideia de desenvolvimento sustentável nos Estados Unidos.


A reportagem e a entrevista é de Carolina Rossetti e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 23-10-2011.

Em 1974, Lester Brown fundou o Worldwatch Institute, primeiro centro de pesquisa do mundo dedicado a questões ambientais, do qual foi presidente por 26 anos. Estudioso de segurança alimentar, mudanças climáticas e energia renovável, ele foi eleito pela revista Foreign Policy um dos pensadores mais importantes de 2010. Na semana do Dia Mundial da Alimentação das Nações Unidas, segunda-feira, Brown falou sobre seu "plano B" para evitar um colapso dos recursos naturais do planeta

Parte do plano consiste em maneiras sustentáveis para dar de comer a 8 bilhões de pessoas em 2050. "Só hoje à noite teremos mais 219 mil pessoas no jantar", preocupa-se. "Os fazendeiros não estão dando conta dessa demanda, pressionados pelas mudanças do clima e a falta de água para irrigação. Neste ano esperávamos uma melhora, mas de novo os estoques de grãos estão baixos e os preços, altos. A escassez pode ser o novo normal."

Com um livro publicado no começo do ano, World on the Edge, pela editora W. W. Norton & Company, elogiado pelo ex-presidente Bill Clinton ("Devemos prestar atenção aos conselhos de Lester Brown"), o economista já trabalha em outros dois: um estudo sobre energias renováveis e uma autobiografia com lições tiradas da fazenda em New Jersey, onde os tomates deram lugar à soja, "para alimentar os chineses".

A geopolítica da escassez

"No final de 2007 e início de 2008, a provisão de alimentos estava apertada e os preços dos grãos subiram drasticamente. Alguns dos principais produtores reduziram as exportações para manter o custo nacional sob controle. Rússia e Argentina, grandes exportadores de trigo, restringiram as vendas; Vietnã, o segundo maior exportador de arroz, proibiu a exportação por meses. Muitos países que dependem da importação de alimentos perceberam que não podem mais contar com o mercado. Foi então que, em 2008, Arábia Saudita, China, Coreia do Sul, começaram a comprar ou arrendar terra em outros países, particularmente na África, mas também na América Latina e Sudeste da Ásia, a fim de produzir alimentos para si. Os principais destinos de compra foram Etiópia e Sudão, onde milhões de pessoas são sustentadas com comida do Programa Mundial de Alimentos da ONU. A competição por terra e água em nível internacional é uma manifestação precoce da nova geopolítica da escassez. Essa não parece ser uma situação temporária, mas uma que pode se prolongar indefinidamente. No ano passado, depois da onda de calor na Rússia houve uma grande redução da colheita de grãos e os preços dispararam de novo. Em 2011, estávamos com a expectativa de restabelecer os estoques. Como os preços estavam altos na época do plantio, produtores plantaram mais e usaram mais fertilizantes que no ano anterior. Ainda assim, não conseguiram dar conta da demanda e os estoques de grãos continuam e o baixos e os preços, altos. Estamos mais vulneráveis a mudanças climáticas e ao impacto de desastres naturais sobre as plantações. Nessa situação instável, um novo mecanismo para estabilizar os preços de grãos é necessário. Talvez algo como um Banco Mundial de Alimentos, que poderia garantir alguma estabilidade. Seria uma reserva internacional de grãos, para regulamentar o sobe e desce dos preços dos alimentos. Um órgão independente, multilateral, com representantes dos países produtores e exportadores de alimentos. É uma ideia.

Alimentando 8 bilhões

"Durante a maior parte do último meio século, os Estados Unidos tiveram um superávit de grãos e a Secretaria de Agricultura pagava aos produtores para que não plantassem em toda a extensão de suas propriedades. A quantidade de hectares posta de lado era ajustada todo ano de acordo com o mercado. Se uma monção na Índia ou uma seca na antiga União Soviética forçasse a subida do preço de grãos, os americanos retomavam o cultivo das terras em stand-by e a situação se estabilizava. Mas agora produzimos no limite da capacidade. Não há mais terra fértil ociosa e desocupada nos Estados Unidos. Perdemos a margem de segurança na economia mundial de alimentos. Não há mais jeito fácil de aumentar a produção quando os estoques encolhem. Os fazendeiros não estão dando conta da demanda, pressionados ainda pelas mudanças no clima e a falta de água para irrigação. São 80 milhões de pessoas a mais por ano no mundo, o que significa que só hoje à noite precisamos abrir espaço para 219 mil pessoas na mesa de jantar. Em 2050, serão 8 bilhões, segundo a ONU. Além do crescimento populacional, muita gente, particularmente na China, está tentando subir na cadeia alimentar e consumir mais grãos, carne, ovos e leite. Esse cenário, em que nunca temos o suficiente e o preço dos alimentos é flutuante, mas com uma tendência de alta, pode se tornar crônico. A escassez então seria o novo normal. Isso pressionará ainda mais as família de baixa renda, que hoje já gastam de 50% a 70% de seu dinheiro em comida. Nas décadas finais do século passado o número de pessoas com fome estava em declínio, caindo para o patamar de 825 milhões na virada do século. Mas no início do século 21, com o aumento do preço dos alimentos e a escassez nos celeiros do mundo, a fome voltou a crescer, atingindo hoje o desastroso recorde de 1 bilhão de pessoas.

Índia e China, bolhas de 'overpumping'

"Os países em situação mais preocupante são Índia e China. Em breve a Índia sofrerá uma queda na produção de alimentos. Segundo o Banco Mundial, 175 milhões de indianos (e 130 milhões de chineses) dependem de grãos produzidos com overpumping, a superexploração dos lençóis freáticos responsável por uma bolha de produção de alimentos que explodirá quando os aquíferos se esgotarem. A produção vai cair ao nível sustentável de acordo com a capacidade hídrica da Índia, que é inferior ao necessário para alimentar 1,1 bilhão de pessoas. O que a China está tentando, desesperadamente, é se manter mais ou menos autossuficiente na produção de grãos, com sacrifício da produção de soja e investimento em outros cultivos. Por ano, os chineses consomem 70 milhões de toneladas de soja - não só como tofu, mas principalmente como ração de aves e porcos - e só produzem 14 milhões. Por isso em quase todo o Ocidente planta-se mais soja que trigo ou milho. No Brasil, a produção de soja é maior que a de todos os outros grãos juntos. Nos Estados Unidos temos mais soja que trigo. Na Argentina a situação é ainda pior e a proporção chega ao dobro em relação aos demais grãos. O país virou praticamente uma monocultura de soja. E como é difícil aumentar o rendimento da produção de soja por hectare, só conseguimos mais soja ampliando a área de plantio.

Trabalhando a terra

"Nos países com agricultura avançada os fazendeiros estão alcançando os cientistas. Vemos isso na produção de arroz no Japão, um dos primeiros países a conseguir um aumento sustentável da produtividade de grãos. Depois de subir por um século, o rendimento por hectare de arroz no Japão não tem aumentado há 16 anos. Atingiu-se o limite. Na China o rendimento de grãos aumentou, mas podemos esperar um nivelamento similar ao Japão. O mesmo se dá na França, Inglaterra e Alemanha: o plantio de trigo também chegou ao limite da eficiência fotossintética. Mas hoje a palavra-chave é água. O mundo até que foi bem-sucedido em aumentar a produtividade da terra. De 1950 a 2010 triplicamos o rendimento de grãos por hectare, mas fizemos muito pouco para otimizar o uso de água.

Conselho a José Graziano, da FAO

"A FAO não é um braço forte das Nações Unidas e não tem um papel proeminente na economia mundial de alimentos como, por exemplo, a Organização Mundial da Saúde (OMS) tem no controle de doenças infecciosas. A FAO produz relatórios. Uma das coisas que José Graziano (brasileiro que será o próximo diretor da FAO a partir de 2012) precisa fazer é investir na educação e informar o mundo sobre o momento que vive a agricultura mundial, para mostrar como a água está escassa e como isso logo poderá se traduzir em escassez de comida. Ele precisa também focar na questão populacional. Há uma tradição de a FAO nunca mencionar a necessidade de mudança rápida para famílias menos numerosas, até porque isso aumenta o orçamento de outra agência e não o dela. Mas precisamos dar particular atenção aos 215 milhões de mulheres do Sul da Índia e África Subsaariana que não têm acesso a nenhum tipo de planejamento familiar. Graziano precisa falar sobre a relação entre mudanças climáticas e segurança alimentar. As decisões tomadas nos ministérios de energia têm mais efeito sobre o futuro da segurança alimentar do planeta que as tomadas nos ministérios de agricultura. Nos Estados Unidos, por exemplo, 124 milhões dos 400 milhões de toneladas de grãos produzidas foram para as destilarias de etanol em 2010. É uma situação totalmente nova. Quem está no topo da FAO terá responsabilidade de trabalhar com os ministérios de energia, transporte, meio ambiente e recursos hídricos, não só os da agricultura. Uma abordagem estreita e tradicional do dilema da segurança alimentar do mundo pode ser, neste momento, desastrosa.

Controlando as porções

"Em paralelo a tudo isso que discutimos, há importantes revoluções alimentares acontecendo no mundo em âmbito local. A pressão por produtos mais frescos, saborosos, nutritivos e saudáveis está crescendo. A produção local de alimentos ganha atenção nos Estados Unidos. Soluções como as hortas urbanas e as feiras de pequenos produtores estão, felizmente, se expandindo há anos. Tem gente que brinca que, com o aumento do preço do petróleo, as enormes saladas ceasar estão com os dias contados aqui na costa leste dos EUA, pois a alface vem da Califórnia e vai chegar o dia em que essa viagem se tornará cara demais. Em parte isso é verdade. Outro ponto importante é a questão do desperdício. Há meio século falamos sobre a necessidade de reduzi-lo. Sabe-se que grande parte do desperdício de alimentos se dá na estocagem por causa de celeiros ruins, sujeitos a chuva e insetos. Mas há outras formas de desperdício. Os restaurantes americanos servem pratos enormes como se ainda fôssemos uma nação de trabalhadores braçais, quando, na verdade, somos um país de funcionários de escritório. Ou o excedente vai para o lixo ou a pessoa come mais do que precisa, o que é também uma forma de desperdício. E aí temos outro grave problema que atinge tanto países desenvolvidos quanto subdesenvolvidos: a obesidade.
 
Compartilhado do Instituto Humanias Unisinos

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Pastores pentecostais tocam fogo em templos indígenas no Brasil. “Urucum é bosta do diabo”

5 fev

Ras Adauto da ppaberlim, nos alertou sobre a grave situação em que vivem os Guaranis no Mato-Grosso do Sul: “A luta dos índios guaranis no Mato Grosso do Sul para preservarem suas tradições religiosas  necesssita de intervenção do governo federal,  suas práticas religiosas estão sendo acintosamente satanizadas pelas seitas pentecostais.”
O 25 mil índios que ainda restam na região em que eles foram donos, estão sendo vítimas no momento de um massacre e genocídio cultural. 36 igrejas pentecostais  concorrem entre si pelas almas indígenas, somente em uma reserva com 12 mil indios em Dourados.
Os indígenas já não podem nem mais usar urucum, pois segundo os pastores das igrejas, a tinta  usada pelos indígenas para cobrir seus corpos, é “bosta” do diabo.
Reportagem de Fábio Pannunzio para a Rede Bandeirantes de Televisão.