domingo, 14 de julho de 2013

Entrevista especial com Giuseppe Cocco

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Mobilização reflete nova composição técnica do trabalho imaterial das metrópoles.

Não estamos diante da “falência da política. Ao contrário, trata-se da persistência da política! Diante de tudo que os partidos de esquerda fazem para fornecer munições ao velho discurso antidemocrático e moralista da elite, esses movimentos mostram que a política está viva, apesar dos Felicianos, dos Aldos, da tecnocracia neodesenvolvimentista e da corrupção”, avalia o cientista político.
Confira a entrevista.
 
 Foto: Marcelo Say - Epa
Na tentativa de compreender as razões que levaram milhares de cidadãos brasileiros às ruas, o sociólogo Giuseppe Cocco, que estuda o conceito de multidão abordado pelo italiano Antônio Negri, elenca algumas possibilidades. Na avaliação dele, o ciclo de “revoluções 2.0”, com base na internet, “começa a ter uma duração consistente (de mais de 3 anos) e entrou no imaginário, na linguagem de gerações de jovens que não formam mais suas opiniões na imprensa, mas diretamente nas redes sociais”. Outro aspecto importante é o fato de jovens brasileiros só terem conhecido “o Brasil de Lula”. E dispara: “No Brasil, o PT e seu governo (e sua coalizão) pensavam estar blindados pelos recentes sucessos eleitorais (a eleição de Haddad, a reeleição quase plebiscitária do Paes, no Rio), por estar num ciclo econômico positivo e por ter achado que o sagrado graal do ‘novo modelo’ econômico seria, na realidade, reeditar o velho nacional-desenvolvimentismo, rebatizado de neodesenvolvimentismo”.
De acordo com Cocco, havia e há no Brasil “um sem número de movimentos de protesto e resistência, em particular por causa dos efeitos dos megaeventos, e hoje esses movimentos se juntaram, confluindo com a multidão da nova composição do trabalho metropolitano”.
Na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por e-mail, ele assinala que os protestos ganharam força a partir do Movimento Passe Livre porque “a questão dos transportes e, mais em geral, do serviços é estratégica para o trabalho metropolitano”.
E esclarece: “Os operários fordistas lutavam por salários e horários. Os trabalhadores imateriais têm como fábrica a metrópole e lutam pela qualidade de vida da qual dependerá a inserção deles em um trabalho que não é mais um emprego, mas uma ‘empregabilidade’. Os operários fordistas lutavam para reduzir a parte do horário que ia embutida como lucro nos carros que produziam; os trabalhadores imateriais nas metrópoles desviam os slogans publicitários de uma montadora (‘Vem Pra Rua’) para ressignificar os agenciamentos produtivos que se desenham na circulação”.
Giuseppe Cocco (foto abaixo) é graduado em Ciência Política pela Université de Paris VIII e pela Università degli Studi di Padova. É mestre em Ciência, Tecnologia e Sociedade pelo Conservatoire National des Arts et Métiers e em História Social pela Université de Paris I (Panthéon-Sorbonne). É doutor em História Social pela Université de Paris I (Panthéon-Sorbonne). Atualmente é professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ e editor das revistas Global BrasilLugar Comum e Multitudes. Coordena a coleção A Política no Império (Civilização Brasileira).
Confira a entrevista.
IHU On-Line – Manifestações sociais massivas descontentes com a política e a economia iniciaram no Oriente, na Espanha, em Wall Street. E agora chegam ao Brasil. Por quê? O que estas manifestações sociais representam?
Foto: amaivos.uol.com.br
Giuseppe Cocco – Podemos logo começar dizendo que o que caracteriza essas manifestações é que elas não representam exatamente nada ao passo que, por um tempo mais ou menos longo, elas expressam e constituem tudo. O primeiro elemento é este: elas têm uma dinâmica intempestiva, fogem a qualquer modelo de organização política (não apenas os velhos partidos ou os sindicatos, mas também o terceiro setor, as ONGs) e afirmam uma democracia radical articulada entre as redes e as ruas: autoconvocação e debates nas redes sociais, participação massiva às manifestações de rua, capacidade e determinação de enfrentar a repressão e até capacidade de construção e autogestão de espaços urbanos como foram a Praça Tahrir, as acampadas espanholas e as tentativas do Occupy Wall Street e, enfim, a Praça Taksim em Istambul, na Turquia. Para cada uma dessas ondas e dessas que chamamos de “primaveras”  houve um estopim específico, mas todas dispõem de uma mesma base social (por mais diferenciadas que sejam as trajetórias socioeconômicas dos diferentes países) e dos mesmos processos de subjetivação. No caso do Brasil, todo mundo sabe que o estopim foram os protestos contra o aumento do preço das passagens nos transportes públicos. Como foi o caso de outras marchas, a manifestação em São Paulo foi violentamente reprimida pela Polícia Militar. Só que dessa vez a faísca não se apagou numa “marcha da liberdade” e incendiou São Paulo e todo o país. Mas saber que o estopim foi esse não nos permite avançar na análise.
Por que agora? É difícil responder e talvez a característica própria desse tipo de movimento é que ninguém sabe propor razões “objetivas” indiscutíveis. Contudo, podemos avançar três explicações: a primeira explicação tem a forma de um segundo “estopim” e é a quase coincidência do episódio da repressão da marcha pelo passe livre em São Paulo com a renovação das primaveras árabes e do 15M espanhol nas lutas duríssimas da multidão turca naPraça Taksim, em Istambul (não por acaso, na segunda manifestação carioca, que já reunia 10 mil pessoas, um dos gritos era: “acabou a mordomia, o Rio vai virar uma Turquia”); uma segunda explicação está no fato que esse ciclo de “revoluções 2.0” começa a ter uma duração consistente (de mais de 3 anos) e entrou no imaginário, na linguagem de gerações de jovens que não formam mais suas opiniões na imprensa, mas diretamente nas redes sociais; aterceira explicação é mais consistente e a mais importante e diz respeito ao que são essas “novas gerações” no Brasil de hoje, ou seja, essas gerações de jovens que só conheceram o Brasil de Lula. O que é incrível e até irônico é que o próprio PT não tenha previsto isso e ainda hoje seja incapaz de enxergar esse dado importantíssimo.
IHU On-Line – Quais as aproximações e diferenças entre as manifestações brasileiras e as que vêm ocorrendo em outros países?
Giuseppe Cocco – As aproximações são mais importantes do que as diferenças, que apenas enfatizam a qualidade específica de cada evento.
Num primeiro nível, há em comum a articulação entre as redes e as ruas como processo de autoconvocação das marchas e manifestações que ninguém consegue representar, sequer as organizações que se encontraram no cerne da primeira chamada: a tentativa de “empoderar” os rapazes do Movimento pelo Passe Livre em São Paulo (“oficializados” pela presença no Roda Viva e a negociação com prefeitura e estado) mostrou que eles não controlam nem dirigem um movimento que se autorreproduz de maneira rizomática (as manifestações aconteciam ao mesmo tempo sem respeitar qualquer tipo de “trégua”).
Num segundo nível, há em comum o esgotamento da representação política. No Brasil, esse fenômeno foi totalmente subavaliado pela “esquerda” e, sobretudo, pelo PT porque não o entenderam (e não o entendem).
Inicialmente pensaram que fosse um problema das autocracias do Norte da África (Tunísia e Egito); depois que fosse a incapacidade dos socialistas espanhóis (PSOE) de responder de maneira soberana às injunções das agências internacionais de notação ou do Banco Central Europeu. Depois pensaram que o 15M espanhol não consegue encontrar uma nova dinâmica eleitoral ao passo que o partido de Beppe Grillo mostrou na Itália um fenômeno eleitoral totalmente novo e desgovernado.
Em seguida, pensaram que o Egito e a Tunísia foram normalizados eleitoralmente pelo islamismo conservador e aí aparece o levante turco contra o governo islâmico moderado.
No Brasil, o PT e seu governo (e sua coalizão) pensavam estar blindados pelos recentes sucessos eleitorais (a eleição de Haddad, a reeleição quase plebiscitária do Paes, no Rio), por estar num ciclo econômico positivo e por ter achado que o sagrado graal do “novo modelo” econômico seria, na realidade, reeditar o velho nacional-desenvolvimentismo, rebatizado de neodesenvolvimentismo. O que a esquerda como um todo, e o PT no Brasil não entenderam, é que a crise da representação é geral (mesmo que ela tenha sintomas e manifestações diferenciadas), e que os levantes da multidão no Egito, na Tunísia, na Espanha, na Turquia e agora no Brasil são a expressão, entre outras coisas, de uma recusa radical dessa maneira autorreferencial de pensar por parte dos governos e dos partidos políticos.
Num terceiro nível há a principal proximidade entre todos esses movimentos: a base social dessa produção de subjetividade é o novo tipo de trabalho que caracteriza o capitalismo cognitivo. As redes que protestam e se constituem nas ruas de MadriLisboaRomaAtenasIstambulNova York e agora de todas as cidades brasileiras são formadas pelo trabalho imaterial: estudantes, universitários, jovens precários, imigrantes, pobres, índios, ou seja a composição heterogênea do trabalho metropolitano. Não por acaso, por um lado, uma de suas formas principais de luta foi a “acampada” ou o “occupy” e, por outro, os levantes turco e brasileiro tiveram como estopim a defesa das formas de vida da multidão do trabalho metropolitano: a defesa do parque contra a especulação imobiliária (a construção de um shopping) em Istambul, e a luta contra o aumento do custo dos transportes, no caso do Brasil.
Diante dessas aproximações, as diferenças são bem menores, embora elas existam (e sejam até óbvias). Podemos apreender essas diferenças do ponto de vista das condições objetivas da cada país e do ponto de vista de como cada um desses movimentos foi transformando (ou não) a fase destituinte em momento constituinte. Assim, o 15Mespanhol se apresenta como a experiência que mais conseguiu durar apesar de não ter revertido as políticas econômicas. As revoluções árabes foram normalizadas pelas vitórias eleitorais conservadoras, mas os levantes se tornam endêmicos.
Na Turquia e ainda mais no Brasil, não sabemos – literalmente – o que vai acontecer. É no plano das condições objetivas que encontramos a maior diferença: na Espanha e, em geral, no mediterrâneo as revoluções são marcadas pelos processos de “desclassificação” das classe médias. No Brasil é exatamente o contrário: tudo isso acontece no âmbito e no momento da emergência da “nova classe média”. Só que essa nova composição de classe é, na realidade, a nova composição do trabalho metropolitano, lutando pelos parques ou pelos transportes públicos: ascendendo socialmente, os pobres brasileiros se tornam o que as classes médias europeias se tornam, descendo: a nova composição técnica do trabalho imaterial das metrópoles.
IHU On-Line – Além do aumento do preço das passagens, quais são os outros motivos que desencadearam as manifestações?
Giuseppe Cocco – Podemos elencar duas respostas. A primeira é a seguinte: se pensarmos bem, essa pergunta encontra sua resposta numa sua simples reformulação: “por que nas cidades e metrópoles brasileiras não há mais lutas e mais levantes pelo sem número de motivos que a justificariam?"
No Brasil, não faltam razões! Uma vez que “pegou” é só escolher, a lista é infinita.
Foto: Natália Scholz
Vou trazer apenas um exemplo, contando uma anedota: um dia fui assistir a um Fórum da UPP Social (que hoje não existe mais) em duas favelinhas da Zona Norte, bem precárias. Toda a parafernália dos governos estadual e municipal estava mobilizada, com seus carros de função, para dar sentido à pacificação. Os poucos moradores que falaram colocaram dois problemas essenciais: primeiro, disseram, vivemos no meio do esgoto; segundo, os policiais agem de maneira violenta e arbitrária.
As dezenas de secretários e outros servidores presentes não conseguiram dizer nada sobre como seria resolvido esse problema básico do saneamento. Saindo da favelinha, passei por uma centena de adolescentes que ficava sem fazer nada na entrada e, no caminho de volta ao Centro do Rio, a 5 minutos de carro, passei na frente de uma obra gigantesca, faraônica: o Maracanã!
A pergunta de cima encontra uma resposta bem igual a que colocava Keynes em 1919: “nem sempre as pessoas aceitam morrer em silêncio”. Havia no Rio de Janeiro e no Brasil (e continua havendo) um sem número de movimentos de protesto e resistência, em particular por causa dos efeitos dos megaeventos, e hoje esses movimentos se juntaram, confluindo com a multidão da nova composição do trabalho metropolitano. No Rio, os manifestantes sempre se juntam para dirigir invectivas pesadas ao governador Sergio Cabral e ao prefeito Eduardo Paes.
Chegamos assim à segunda resposta: o movimento foi mesmo pelos 0,20 centavos! Só que esse “pouco” é na realidade “muito”. Por quê? Porque a questão dos transportes e, mais em geral, dos serviços é estratégica para o trabalho metropolitano. Os operários fordistas lutavam por salários e horários. Os trabalhadores imateriais têm como fábrica a metrópole e lutam pela qualidade de vida da qual dependerá a inserção deles em um trabalho que não é mais um emprego, mas uma “empregabilidade”.
Os operários fordistas lutavam para reduzir a parte do horário que ia embutida como lucro nos carros que produziam; os trabalhadores imateriais nas metrópoles desviam os slogans publicitários de uma montadora (“Vem Pra Rua”) para ressignificar os agenciamentos produtivos que se desenham na circulação. Os operários fordistas lutavam contra o trabalho. Os trabalhadores imateriais lutam no terreno da produção de subjetividade. É na circulação que a subjetividade se produz e produz valor e renda.
IHU On-Line – Os manifestantes deixam claro que são apartidários, não querem violência e não têm lideranças. Como interpreta esse discurso? Como pensar um novo modelo político a partir dessas características?
Giuseppe Cocco – Com certeza, uma das dimensões constitutivas da Revolução 2.0 é a crise da representação e essa é uma questão central. Precisamos lembrar que a antecipação da revolução 2.0 como crítica radical da representação é sul-americana. O “Que se vayan todos” argentino antecipou em 10 anos o “No nos representan” espanhol. Só que as dimensões dessa crise são processadas pelo discurso oficial – ou seja, partidário – de maneira invertida. E essa inversão não é por acaso. Aliás, os últimos desdobramentos do movimento (as agressões contra os partidos de esquerda nas manifestações do dia 20 de junho) nos mostram muito bem como funciona essa inversão.
Os partidos (sobretudo aqueles que estão no governo) dizem que esses movimentos são limitados porque recusam os partidos, não são “orgânicos”, porque têm uma “ideologia” que os recusa e, portanto, são potencialmente antidemocráticos. Obviamente, isso é correto. Só que, a afirmação correta esconde duas belas falsificações.
primeira também é óbvia: os “grupos” que rezam por uma crítica fundamentalista da representação têm pouca consistência social e nenhuma capacidade de determinar, sequer influenciar, movimentos desse tamanho.
segunda falsificação é uma consequência dessa primeira: os partidos atribuem a crise da representação a um processo e a uma crítica que viria de fora, quando na realidade os maiores e únicos responsáveis dessa crise são eles!
E a responsabilidade está na indiferenciação da clivagem direita/esquerda, ou seja, no fato de os governos mudarem e continuarem fazendo as mesmas coisas, inclusive com a reciclagem das mesmas figuras políticas. Assim, o PSOEespanhol atribuiu ao 15M sua derrota eleitoral, quando na realidade o 15M é apenas a consequência do fato que os socialistas espanhóis faziam a mesma política econômica da direita. É exatamente o que acabou acontecendo no Brasil de Lula e, sobretudo, de Dilma. O movimento que nasceu com a luta contra o aumento recusa as dimensões autoritárias e arrogantes das coalizões e desses consensos que reúnem direita e esquerda na reprodução dos interesses de sempre.
É o Haddad que devia representar o novo e se apresenta junto ao Alckmin para juntos dizerem a mesma coisa: que a redução da tarifa terá um custo (sic!). É a coalizão conservadora que governa o estado e a prefeitura do Rio, e onde oPT planeja e executa remoções de pobres, desrespeitando a própria LOM. São as alianças espúrias com os ruralistas de um ministro de esquerda. É a condução autoritária das megaobras e dos megaeventos. É a entrega daComissão de Direitos Humanos da Câmara a um fundamentalista que, exatamente no dia seguinte da grande manifestação da segunda-feira, fez votar o projeto de Lei que define a homossexualidade como uma doença.
A esquerda e a incapacidade
A extrema esquerda ou a esquerda radical erram quando pensam que estão “salvas” dessa situação. Os partidos de esquerda são incapazes de entender que esse movimento se forma na recusa – confusa, flutuante, ambígua e até perigosa – do partido, da organização separada, da bandeira. Isso porque a recusa é geral, não faz distinções e funciona como rejeição de qualquer plataforma ideológica preparada e determinada por lógicas de aparelhos separados: nisso há uma percepção de que um dos problemas da política é a construção de aparelhos que tendem – antes de tudo – a reproduzir a si mesmos.
A agressão de um grupo organizado ao bloco de bandeiras do PSTU, do PSOL e do PCB na marcha da quinta feira, 20 de junho, quebrou as ilusões de que a crise seria somente do PT e assustou todo o mundo. Contudo, nesse episódio lamentável encontramos, mais uma vez, o funcionamento perverso da lógica da representação. Os grupos agressores eram claramente organizados e tinham esses objetivos tão claramente quanto o processo de organização indica as manipulações mais podres. Todas as análises e denúncias que imediatamente foram produzidas identificaram esses grupos (que claramente agiam a mando de algum desenho de provocar essa situação) com a manifestação em geral.
Sem partidos
Na realidade, o apoio genérico dos jovens à palavra de ordem “sem partidos!” não tem nenhuma significação linear e ainda menos “fascista”. Paradoxalmente, a recusa dos partidos, inclusive dos “radicais” e de suas bandeiras, é a recusa – claro, confusa e contraditória – da homologação de direita e esquerda e uma demanda para uma “verdadeira esquerda”. Essa demanda não é idealista e não pode ser travada com linguagens e símbolos obsoletos (as bandeiras vermelhas, por exemplo). Para reerguer as bandeiras vermelhas, é preciso deixá-las em casa por um bom momento! A bandeira vermelha precisa abandonar sua dimensão ideal e transcendente (ou seja, vazia) e voltar a ser interna (imanente) às linguagens das lutas como eles são. Nesse terreno é possível e necessário construir outra representação e, sobretudo, reforçar a democracia.
IHU On-Line – O senhor publicou recentemente no Twitter que “as lutas da multidão em São Paulo e no Rio são o melhor resultado dos governos Lula. Tão bom que ninguém no PT foi capaz de antecipar”. Pode nos explicar essa ideia? Trata-se da falência da política?
Giuseppe Cocco – Começando do final: não estamos diante da “falência da política. Ao contrário, trata-se da persistência da política! Diante de tudo que os partidos de esquerda fazem para fornecer munições ao velho discurso antidemocrático e moralista da elite, esses movimentos mostram que a política está viva, apesar dos Felicianos, dosAldos, da tecnocracia neodesenvolvimentista e da corrupção! Ser contra o moralismo da direita não significa achar “graça” nos comportamentos imorais da esquerda no poder. Trata-se apenas de não cair nas armadilhas da direita, mas num esforço de conjunção ética dos fins e dos meios.
Esse movimento, qualquer seja seu desfecho, é o movimento da multidão do trabalho metropolitano, o mais puro produto dos 10 anos de governo do PT. Vamos aprofundar e esclarecer essa afirmação em dois momentos. Num primeiro momento, essa afirmação é uma valoração positiva dos governos Lula e Dilma. Uma avaliação positiva não porque tenham sido de “esquerda” ou socialistas, mas porque eles se deixaram atravessar – sem querer – por ume série de linhas de mudança: políticas de acesso, cotas de cor, políticas sociais, criação de empregos, valorização do salário mínimo, expansão do crédito.
A esquerda radical julgava essas políticas exatamente como agora – ironicamente nesse caso até o PT – julgam a questão das “bandeiras”: idealmente. “Lula está implementando outro modelo, outra sociedade, socialista?” se perguntava e criticava. Ora, ninguém implementa modelo alternativo, mesmo quando se está no governo. Apenas pode ter a sensibilidade de apreender as dinâmicas reais que, na sociedade, poderão amplificar-se e produzir algo novo.
Os governos Lula e Dilma associaram o governo da interdependência na globalização com a produção, tímida e real, de uma nova geração de direitos e de inclusão produtiva. Estatisticamente, isso se traduziu na mobilidade ascendente dos níveis de rendimento de mais de 50 milhões de brasileiros e pela entrada de novas gerações nas escolas técnicas e universidades. Lula não quis saber de bandeiras e até declarou que ele “nunca tinha sido socialista”. Ficou dentro da sociedade indo atrás das linguagens, dos símbolos e das políticas que entendia.
Na virada da década de 2010, esse processo se consolidou em dois fenômenos maiores: o primeiro é eleitoral e tem o nome de “lulismo”, ou seja, a capacidade que Lula tem de ganhar e, sobretudo, fazer ganhar eleições majoritárias: começando pela presidente Dilma e chegando ao prefeito Haddad; o segundo é o regime discursivo da emergência de uma “nova classe média”, com base nos trabalhos do economista Marcelo Neri. Com a crise do capitalismo global (2007-2008) e a chegada de Dilma ao poder, o discurso da “nova classe média” foi além das preocupações do marketing eleitoral, para tornar-se a base social de uma virada que vê, no papel do Estado junto das grandes empresas, o alfa e o ômega de um novo modelo desenvolvimentista (neodesenvolvimentista).
Economia
Sociologicamente, o objetivo do neodesenvolvimentismo é transformar os pobres em “classe média”, e para isso é preciso economicamente de um Brasil Maior, capaz de se reindustrializar. O governo Dilma chegou a baixar os juros e multiplicou os subsídios às indústrias produtoras de bens de consumo duráveis, em particular de carros, e à construção civil. O que o movimento afirmou e certificou foi a dimensão ilusória desse suposto modelo (isso não significa que o modelo não será implementado; significa apenas que ele perdeu a patina de consenso que o legitimava e deverá apresentar-se como cada vez mais autoritário). No plano macroeconômico, a inflexão tecnocrática não deu muito certo, pois a tentativa de mexer nos juros resultou na volta da inflação dos preços (que está na base da revolta). A inflação dos juros e aquelas dos preços se reapresentaram como as duas faces de um impasse renovado que só uma mobilização produtiva (da qual não há sinal) pode resolver .
Nova classe média não existe
No plano sociológico, a “nova classe média” não existe, porque o que se constitui é uma nova composição social cujas características técnicas são de trabalhar diretamente nas redes de circulação e serviços da metrópole. A figura econômica (a “média” da faixa de renda) esconde o conteúdo sociológico de uma inclusão produtiva que não passa mais pela prévia implementação na relação salarial. Esse trabalho dos incluídos enquanto excluídos é um trabalho de tipo diferente: ele é precarizado (do ponto de vista da relação de emprego); imaterial (do ponto de vista que depende da recomposição subjetiva e comunicativa do trabalho manual e intelectual) e terciário (do ponto de vista da cadeia produtiva, aquela dos serviços).
A qualidade da inserção produtiva desse trabalho depende diretamente dos direitos prévios aos quais têm acesso e que, ao mesmo tempo, ele produz, como, por exemplo, poder circular pela metrópole. É exatamente essa composição técnica e social do trabalho metropolitano o que constitui a outra face da “nova classe média” oriunda do período Lula. Ao mesmo tempo em que ela foi a base eleitoral das sucessivas derrotas do neoliberalismo, ela é também hoje, na sua recomposição política, a oposição ao neodesenvolvimentismo. Para ela, a questão da mobilidade urbana tem a mesma dimensão que tinha o salário para os operários ao mesmo tempo em que o segmento estratégico é aquele dos serviços.
As cidades e metrópoles brasileiras – e não a reindustrialização – constituem o maior gargalo, ao mesmo tempo social, político e econômico. A ideologia e a coalizão de interesses que estão com a presidente Dilma não mostraram, até agora, a menor capacidade de enxergar esse dado. Mais do que isso, essa nova composição do trabalho imaterial e metropolitano produz, a partir de formas de vida, outras formas de vida. Por isso, o movimento do passe livre, como aquele de Istambul que defendia um parque, foi juntando todos os focos de resistência que existem nas metrópoles, até se espalhar – como está fazendo nesse momento, dramaticamente e assustadoramente – pelas periferias onde nunca teve manifestação de massa nenhuma.
O que esse “levante” da multidão do trabalho imaterial nos mostra é que o “legado” destes últimos dez anos de governo está em disputa, e que o mais interessante é ficar por dentro dessas alternativas, em vez de querer colocar uma ou outra bandeira. A política e os movimentos estão dentro e contra. Por exemplo, pensemos a questão dos megaeventos, das copas e olimpíadas. Muitos dos focos de resistência nas metrópoles são movimentos que criticam os gastos com obras, estádios, favelas que resistem contra as remoções etc. Ao mesmo tempo, a possibilidade de o movimento ter acontecido sem uma repressão brutal, por enquanto, se deve também àConfederation Cup. Mais uma vez, o conflito é dentro e contra.
IHU On-Line – O que é possível vislumbrar para o cenário político a partir das manifestações?
Giuseppe Cocco – Creio que o evento é tão potente e imprevisto que ninguém saberá responder a essa pergunta. Sobretudo neste momento: a cada dia e talvez a cada hora mudam alguns dados fundamentais. O que podemos dizer é que o cenário eleitoral de 2014 até 2018 estava desenhado e as variáveis vislumbradas eram aquelas macroeconômicas. O movimento se convidou para essa discussão. Só que não há ninguém que possa sentar nessa eventual mesa dizendo que o representa.
A terra tremeu e continua tremendo, só que a fumaça levantada não nos deixa ainda ver quais prédios cairão e quais ficarão em pé. Nesse cenário, podemos fazer duas conjeturas.
Numa primeira, a presidente Dilma pode abrir pela esquerda, por exemplo, com uma reforma ministerial que colocaria pessoas qualificadas e altamente progressistas em ministérios-chave como a Justiça, Cidade e Transportes, MinC e Educação, convocando a sociedade a se constituir – em todos os níveis possíveis – em assembleias participativas para discutir as urgências metropolitanas.
Na segunda (que me parece ser aquela anunciada pelo pronunciamento do dia 21 de junho), ela se limita a reconhecer a existência de outra composição social no movimento e a construção de um grande pacto sobre os serviços públicos, mas não anuncia nada de novo a não ser algumas bandeiras de longo prazo (a destinação de 100% dos royalties do petróleo para a educação) e enfatiza a questão da ordem: repressão dos “violentos” e respeito pelos megaeventos (ou seja, mais repressão). E isso depois dos fatos bem sombrios da quinta-feira (aparição desses grupos pagos para agredir os partidos e, no Rio, repressão generalizada da manifestação perseguindo a centenas de milhares de participantes durante toda a dispersão).
O cenário que vislumbro é pessimista: parece-me que boa parte dos militantes de esquerda está caindo na armadilha das “bandeiras”, e que isso acabará por realmente entregar o movimento à direita e, por cima, haverá repressão, eventualmente também das opiniões. Nesse cenário muito provável, para salvar a si mesmos e evitar uma renovação geral, as burocracias e outros fisiologismos encastelados nos diferentes governos e coalizões, estão destruindo as possibilidades de uma grande renovação da esquerda e levando todo o mundo de roldão no buraco que será o resultado eleitoral de 2014. Mas quero muito estar errado. Se for verdade que estou errado, serão as lutas da multidão que o dirão e o cenário que elas têm de enfrentar é muito, muito complexo.
Veja também:

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Mudanças de paradigma, eleições, leilões e participação social.


Mudanças, propostas, manifestações e reclamações inflamam as mentes em todo o mundo.

De repente, cada classe que se uniu à massa de manifestantes Brasil a dentro ergue sua própria bandeira:
. Músicos e seus direitos autorais
. Motoristas e seus reajustes muitas vezes maiores que os das demais classes.
. Médicos que não aceitam ir trabalhar no interior do país em condições precária que rejeitam a contratação de outros profissionais estrangeiros
. Professores e seus salários de miséria
. Estudantes precisam chegar ás escolas sem custo de transporte, tem direito a ensino público e gratuito
. Saúde pública precisa ser tratada com forma de prestação de serviço social gratuito.
. Servidor público e políticos são remunerados pelo produto do trabalho de toda a nação.
Isso tudo está na Carta Magna, não?

Este governo tem um mínimo de seriedade e se mantém íntegro ao seu propósito de fazer do Brasil uma verdadeira Democracia, com real participação social e popular com respeito ao trabalho e ao trabalhador?
Ótimo.

Quando for então realizar um plebiscito, que se prepare o povo com discussão séria, pública e divulgada em todos os meios de mídia, nas universidades e no meio acadêmico em todas as esferas.

Dispender um volume enorme de dinheiro para juramentar e dar fé a propostas governamentais de interesse obviamente direcionado a projetos pré-elaborados e que irão apenas conferir mais poder despótico é contrassenso. A não ser que se admitam, de pronto, que aquela proposta de participação social é muito difícil de controlar. Principalmente quando se tem tamanho comprometimento com acordos fixados no momento de barganha pela tomada do poder.

Querem realizar um plebiscito para mudar regras do jogo político?

Adiem a eleição de 2014, promovam uma campanha maior que uma campanha eleitoral fundamentada em debate amplo, geral e irrestrito, de maneira que todos os setores da sociedade possam avaliar as propostas e discutir as alternativas.

Os critérios para eleição da próxima presidente ou próximo presidente da República Federativa do Brasil não poderão ser mais os mesmos que vigeram até a eleição anterior. Está mais que claro que os brasileiros exigem outra postura da sua representação política.


Prova de marcar x não é instrumento sério para validar assuntos de tamanha relevância.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

No Caribe Mexicano ...


Consutório popular em Cancun. Farmácia Popular

Recebi há alguns meses uma oferta imperdível do Hotel Urbano, uma pechincha, oportunidade única e imperdível: 5 dias no Ocean Breeze- Cancun, tudo incluído para um casal por apenas R$ 445,00. Verificados os preços das passagens aéreas e possibilidades com preços promocionais, uma viagem de uma semana para Cancun não deveriam passar de 7 mil reais. Realmente imperdível! Afinal, Hotel Urbano já pode ser considerado um site confiável.

Adquirido o pacoter através de Cartão de Crédito, na confirmação da reserva recebemos a lista de exigências para poder fazer jus à compra. Está tudo explicado na oferta do site. O valor cobrado no cartão de crédito e já pago só vale para casais com comprovação de união por mais de dois anos. Além disso, para confirmação da reserva no resort, tem-se que informar os números de passaportes e assegurar o pagamento com um cartão de crédito internacional válido. Esquisito, mas aceitável. Afinal, a gente não sabe como são as Leis no México. A obrigatoriedade de assistir a uma apresentação de 90 minutos sobre o resort indicava a propaganda de um Clube de Férias. Também compreensível, diante do valor da oferta.

Confirmadas as reservas, passagens compradas, bagagem arrumada e... Cancun.
Tudo o oferecido existe e é mesmo muito bom. 

Riviera Maya Del Lago Restaurant

Artesanato Maya


Porto do Ferriboat Playa del Carmen

The ChiChien Itza

Hotel maravilhoso, ajardinado, bem mobiliado e o mar do Caribe Mexicano, sem dúvida nenhuma, um paraíso. Bom demais! Todos os funcionários de uma simpatia e cordialidade jamais vistas em outros lugares. Pensei: seria esta é aquela Ilha da Fantasia do seriado da década de 70? Os carinhos de golf e carrões no estacionamento indicavam que se tratava de um resort para milionários. O que justificaria aquela promoção para pobres latino-americanos e brasileiros vindos de tão longe?

No segundo dia de hospedagem fomos recepcionados por um jovem paulista para que a apresentação nos fosse repassada no melhor português. O jovem, entusiasmadíssimo, mostrou-nos todas as vantagens de nos tornarmos sócios do Clube de férias e aquisição de uma fração do sistema Time Schering do Vida Vacations, uma empresa Mexicana proprietária de 7 resorts em funcionamento no México e mais outros 3 em implantação. Foi aí que pudemos compreender a mágica do crescimento fenomenal do Turismo no México em apenas 10 anos.

Toda a orla paradisíaca (Cancun, Cozumel e várias outras praias) foi privatizada para essas grandes redes hoteleiras e, nos últimos 10 anos, o sistema agressivo de venda dessas cotas semanais de uso do espaço tem arrecadado milhares dólares sem custo bancário. São um banco de captação em que supostamente remuneram aos investidores em menos de 0,9% ao mês em troca da possibilidade de utilizarem as comodidades de seus resorts e permuta por diárias em outras redes hoteleiras parceiras em mais de 5 mil hotéis espalhados pelo mundo. Uma vantagem e tanto se não se tratasse de mais um sistema de exploração em que a venda agressiva praticamente coage aos visitantes a se associarem ao sistema, promete mundos e fundos mas, de fato, trata-se de um sistema de captação de recursos para toda a vida em troca de um papel (título de sócio por 100 anos).

De fato, aquele lugar maravilhoso recebe americanos de todos os EUA e transformou-se em colônia de férias familiar. O resort é perfeito. A propaganda, entretanto, um engodo. O sistema all inclusive (tudo incluído) é uma farsa por que, na verdade, há cardápios específicos para as promoções apenas com comida mexicana preparada aos panelões e sucos de frutas são refrescos com qualidade muito inferior ao oferecido ao público Norte Americano. Todos em acesso à piscina e jardins, mas não à área reservada aos golfistas e milionários que adquiriram o uso vitalício dos melhores apartamentos do resort.

Depois de conseguirmos fugir do sistema de vendas e controle de todas as despesas que os turistas realizam no país, saímos do resort para conhecer a verdadeira Yucatan: ChiChen Itza, Cozumel, Playa del Carmen, Valadolid, Cancun. Tudo organizadíssimo, limpo e caro. Na verdade, praticamente tudo no México gira em trono do turismo internacional e está perfeitamente organizado para tirar dólares de quem visitar o país.
Aqui nada é de graça, entretanto, ou além disso, o México está anos luz melhor do que o Brasil no que se refere aos cuidados com sua população. Ensino é de graça para todos e até à universidade. Sistema de saúde garante atendimento médico de qualidade para toda a população e sem filas. Como descobrimos isso? Precisamos de adquirir um remédio que não pode ser vendido sem receitas.  O farmacêutico nos indicou o atendimento particular num posto próximo ao terminal de ônibus. Apenas algumas pessoas esperavam no corredor e em alguns minutos fomos atendidos por um médico muito simpático que, ao preencher a ficha de atendimento nos disse: Brasil? Ahh, che bueno, Brasil? Ahh, bueno che, Brasil va contratar a los médicos de Cuba, no? Es muy inteligente por che hijo los mehores en América Latina. Dicen ellos que los médicos brasileños san cilosos. Che pena. . .

Quanto custou a consulta? $35 pesos. (8 reais), E o antibiótico? 135 pesos. O equivalente a 40 reais. O mesmo remédio custa, no Brasil, R$ 180 reais. Conversamos com muita gente no mercado, taxistas, artesãos, índios e guias turísticos para tentar perceber o povo da Planície de Yucatan. Artesanato Maya lindíssimo e uma produção impressionante. Sem dúvida, a viagem foi maravilhosa e bastante instrutiva também. Aquela moratória de 1982 mudou o cenário econômico, político e os investimentos no país. Mas isso é outra história...

O aeroporto de Cancun é, de longe, um dos melhores na América Latina, apesar da Wi-FI (R$7,00 a hora) que não funciona. Terei que compartilhar esse texto quando chegar de volta ao Brasil. Já chamaran: vuelo American Airlines 2128 para Miami, embarque porton 12.

Hasta la vista, Mexico!

EM RESPOSTA A UM COMENTÁRIO QUE DELETEI SEM QUERER:

Quanto ao Ocean Breeze, Kah ( deletei seu comentário por engano e não consigo recuperar. Desculpe-me. Tomara que você consiga ler isso a tempo) cuidado com o vendedor paulista. É um excelente vendedor, rapaz jovem e dedicado e o sistema de vendas deles para associar gente entusiasmada e feliz pela viagem é excelente.
Programa feito para americanos deslumbrados, a nosso ver. Qualidade de vida, opto por ter de maneira permanente e não faço a menor questão de conviver num espaço em que os milionários do golf tem tratamento VIP, claro, e a pobreza Latino Americana que se amontoe num piscinão enorme, cheio de crianças urinando na água, trêbados enchendo a cara em fuga de férias para voltar à escravidão do American Way of Life. Há quem goste.
As instalações da rede hoteleira são satisfatórias em locais de aluguel ( como é o caso) e devem ser excelentes no hotel dos ricos muito ricos.
Só tome café da manhã no Hotel do Lago que tem opções diversas até serve como almoço antes de sair pros passeios, mas isso se torna inviável se você pretender seguir nos passeios oferecidos pelo hotel ( muito caros).
Quem gosta de conhecer gente local e normal ( sem a característica turística da rede construída para tirar dinheiro dos visitantes) andar de ônibus é viável e bem baratinho. Todos os passeios são excelente, entretanto, e valem a pena.
Se for comprar lembranças, faça-o no acampamento dos nativos em Chi Chien Itza. Tudo mais é mais caro e menos, menor, pior.
Ahhh!! Cancún tem também favelas e muita miséria escondida além da fronteira turística e bem distante das áreas de praia e paraíso destinadas ao americanos e demais turistas que conseguem ali chegar agora, depois que a infraestrutura que montaram para eles ficou mais cara.
Um dia vou lá na fronteira do norte para ver e constatar a exploração americana sobre os mexicanos.


sexta-feira, 21 de junho de 2013

O QUE QUEREMOS?

 A Presidente convocou seus Ministros em reunião extraordinária e se questionam porquê.



"De acordo com auxiliares da presidente, esta postura violenta foi "além da conta". O problema, lembram, é que nesta quinta-feira não havia uma reivindicação específica que o governo possa analisar. Era o protesto pelo protesto. "

Não sei quem escreveu a nossa lista, por isso não cito a fonte. Decerto as reivindicações não são só minhas.

" E ainda perguntam... O que queremos?

Como professor do estado de Minas Gerais, em greve por tempo determinado, que estamos praticando apenas nos dias dos jogos da Copa das Confederações, exijo o cumprimento da lei federal 11.738, de 2008, que fixa um piso salarial nacional para os profissionais da educação e exijo o retorno à antiga carreira em forma de vencimento básico, pois ela nos foi retirada à força, juntamente com todos os direitos e benefícios conquistados até hoje. Quero o cumprimento do mínimo constitucional na educação, ...(etc)

Como cidadão participante das grandes manifestações, também compactuo com, vamos dizer, 90% dos cartazes que tenho lido, e palavras de ordem que tenho ouvido, ao vivo e nas mídias, e que exprimem ideias individuais, mas que traduzem aspirações de toda uma geração. Mas ainda nos perguntam o que queremos?


Queremos um decente teto salarial no país, principalmente para os cargos do executivo, do legislativo e do judiciário. Como não podemos barrar a livre iniciativa do lucro, queremos impostos grandes para quem ganha além do teto. Tenho certeza que teríamos bilhões que poderiam ser gastos com o aumento do salário mínimo. E toda vez que vocês forem subir seus salários, nós vamos para as ruas e pararemos todas as capitais, pois agora aprendemos o caminho e perdemos o medo. 

Queremos as verbas que seriam gastas para construir a Copa e as Olimpíadas, investidas sim no esporte, mas em poliesportivos comunitários, praças seguras e arborizadas, ginásios poliolímpicos, ciclovias, pistas de skate, e por aí vai. 

Queremos que a verba usada para tampar os rios, fosse gasta na sua revitalização, com infraestruturas de saneamento ecológico e energias sustentáveis, acompanhadas por políticas sérias de educação ambiental nas suas cabeceiras. 

Queremos incentivos de uso adequado das energias do vento, do sol, da água e da terra; queremos edificações sustentáveis, com captação da chuva e tratamento com reaproveitamento das águas sujas. 

Queremos sim, políticas públicas sérias, que providenciem obras para o povo, não pras empreiteiras. 

Queremos leis que proíbam os maus tratos aos animais. Exigimos respeito e honestidade. 

Queremos uma mídia livre, cibernética, que nos faça sentir parte da grande nação Terra, da grande irmandade chamada Humanidade, da grande fraternidade dos Terráqueos. 

Não queremos Belo Monte. 

Queremos o dinheiro que construiria Belo Monte, no aproveitamento sustentável dos rios e com projetos de energias limpas. 

Não queremos usinas nucleares. Tchernobyl e Fukushima não são suficientes? 

Não queremos a "Cura Gay" e sim respeito à diversidade! Não queremos a PEC 37. 

Queremos um Ministério Público forte, autônomo e sem rabo preso. Exigimos transportes públicos seguros, eficientes, limpos e sustentáveis, movidos a energias não poluentes e quem sabe, com tarifa zero? 

Queremos políticas de redução dos resíduos e o correto tratamento dos mesmos. 

Queremos hortas comunitárias, rurais e urbanas, e não queremos venenos nem Monsanto no mesa de nosso país. 

Queremos leis ambientais feitas para o meio-ambiente e seus habitantes, não para as mineradoras, companhias extrativistas, mega-hidrelétricas e empresários do agronegócio. 

Não toleramos mais o modelo colonial de exploração, na qual nossa matéria prima sai do país às custas de enormes perdas ambientais e sociais, retornando pra cá com valor agregado, fazendo os ricos mais ricos e o planeta mais doente. Estamos fartos da impunidade, corrupção e falta de respeito dos aparatos públicos. 

Não precisamos de mais quartéis e presídios, mas sim de escolas públicas de qualidade com pedagogias mais humanitárias.

Não queremos mais pagar nossos vereadores e deputados, a exemplo de vários países.

Não queremos que tratem usuários de maconha como criminosos, pois as drogas mais pesadas estão nas mãos da indústria farmacêutica e petroquímica, e estão sendo administradas no que chamam de remédios e em nossa alimentação. 

Queremos as terapias integrativas em todos os postos de saúde e médicos comunitários preventivos. 

Exigimos maternidades com parto humanizado, que tratem a mulher sem violência.

Exigimos postos de saúde e banheiros públicos no padrão FIFA. Aliás queremos todos os serviços públicos no padrão FIFA, e de forma gratuita. Não queremos propagandas do governo, baseadas na hipocrisia e falsidade, feitas com o nosso dinheiro. 

Ao invés, gastem esse dinheiro em campanhas publicitárias contra a violência doméstica, a publicidade infantil, os agrotóxicos, o bullying na escola e no trabalho, o tráfico de órgãos, os preconceitos de toda sorte, a escravidão de humanos e animais, a poluição sonora e visual, a comunicação violenta, a pesca predatória, o abuso de poder, a falsidade ideológica, a fofoca, a prevenção de doenças, o desperdício de recursos e energias, enfim, contra e qualquer forma de violência física ou simbólica que atente contra os preceitos referentes aos direitos universais e à cultura de paz planetária.

Sim queremos a utopia e sabemos que ela ainda é possível.

 É isto que queremos! "



A VELHA GLOBO: eu já lí esse filme!

Nem é necessário elaborar demais a forma de expor os fatos.

Então:

A Globo planta que o manifesto é apartidário e manda Jabor desqualificar o movimento.

Mas... recebe a ordem de modificar a postura e transforma os vândalos em heróis e coloca a todos nas capas de todos os jornais e revistas e relança os caras-pintadas...
A ditadura tenta enfraquecer a sociedade política organizada de todas as formas. 
A estratégia midiática agora é colocar agora a população contra a manifestação ou forçar uma necessidade de posicionamento mais enérgico por parte do governo para  controlar a "baderna". Afinal, o movimento cresceu "demais".

O fato é que " o MPL é um movimento de várias forças políticas, inclui ativistas 
independentes, organizações e partidos políticos. desde o início os militantes de partidos 
têm participado de reuniões para organizar os protestos, assim como têm levado suas 
bandeiras. 
No início eram poucas bandeiras, conforme as manifestações foram crescendo, cresceram o 
número de bandeiras e o engajamento de todos. O PSTU, o PSOL ("Juntos") e o PCB - 
assim como organizações menores a exemplo da LER-QI e Coletivos Anarquistas 
- marcaram presença em todos os protestos, com suas bandeiras."


Editorial do jornal “O Globo” de 2 de abril de 1964, celebrando o Golpe Militar 


Capa do jornal O Globo, celebrando o "ressurgimento da democracia", um dia após o Golpe Militar.

Capa do jornal O Globo, celebrando o "ressurgimento da democracia", um dia após o Golpe Militar. Clique para ampliar.


Editorial de “O Globo” do dia 02 de abril de 1964:
“Ressurge a Democracia”
Vive a Nação dias gloriosos. Porque souberam unir-se todos os patriotas, independentemente de vinculações políticas, simpatias ou opinião sobre problemas isolados, para salvar o que é essencial: a democracia, a lei e a ordem. Graças à decisão e ao heroísmo das Forças Armadas, que obedientes a seus chefes demonstraram a falta de visão dos que tentavam destruir a hierarquia e a disciplina, o Brasil livrou-se do Governo irresponsável, que insistia em arrastá-lo para rumos contrários à sua vocação e tradições.
Como dizíamos, no editorial de anteontem, a legalidade não poderia ser a garantia da subversão, a escora dos agitadores, o anteparo da desordem. Em nome da legalidade, não seria legítimo admitir o assassínio das instituições, como se vinha fazendo, diante da Nação horrorizada.
Agora, o Congresso dará o remédio constitucional à situação existente, para que o País continue sua marcha em direção a seu grande destino, sem que os direitos individuais sejam afetados, sem que as liberdades públicas desapareçam, sem que o poder do Estado volte a ser usado em favor da desordem, da indisciplina e de tudo aquilo que nos estava a levar à anarquia e ao comunismo.
Poderemos, desde hoje, encarar o futuro confiantemente, certos, enfim, de que todos os nossos problemas terão soluções, pois os negócios públicos não mais serão geridos com má-fé, demagogia e insensatez.
Salvos da comunização que celeremente se preparava, os brasileiros devem agradecer aos bravos militares, que os protegeram de seus inimigos. Devemos felicitar-nos porque as Forças Armadas, fiéis ao dispositivo constitucional que as obriga a defender a Pátria e a garantir os poderes constitucionais, a lei e a ordem, não confundiram a sua relevante missão com a servil obediência ao Chefe de apenas um daqueles poderes, o Executivo.
As Forças Armadas, diz o Art. 176 da Carta Magna, “são instituições permanentes, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade do Presidente da República E DENTRO DOS LIMITES DA LEI.”
No momento em que o Sr. João Goulart ignorou a hierarquia e desprezou a disciplina de um dos ramos das Forças Armadas, a Marinha de Guerra, saiu dos limites da lei, perdendo, conseqüentemente, o direito a ser considerado como um símbolo da legalidade, assim como as condições indispensáveis à Chefia da Nação e ao Comando das corporações militares. Sua presença e suas palavras na reunião realizada no Automóvel Clube, vincularam-no, definitivamente, aos adversários da democracia e da lei.
Atendendo aos anseios nacionais, de paz, tranqüilidade e progresso, impossibilitados, nos últimos tempos, pela ação subversiva orientada pelo Palácio do Planalto, as Forças Armadas chamaram a si a tarefa de restaurar a Nação na integridade de seus direitos, livrando-os do amargo fim que lhe estava reservado pelos vermelhos que haviam envolvido o Executivo Federal.
Este não foi um movimento partidário. Dele participaram todos os setores conscientes da vida política brasileira, pois a ninguém escapava o significado das manobras presidenciais. Aliaram-se os mais ilustres líderes políticos, os mais respeitados Governadores, com o mesmo intuito redentor que animou as Forças Armadas. Era a sorte da democracia no Brasil que estava em jogo.
A esses líderes civis devemos, igualmente, externar a gratidão de nosso povo. Mas, por isto que nacional, na mais ampla acepção da palavra, o movimento vitorioso não pertence a ninguém. É da Pátria, do Povo e do Regime. Não foi contra qualquer reivindicação popular, contra qualquer idéia que, enquadrada dentro dos princípios constitucionais, objetive o bem do povo e o progresso do País.
Se os banidos, para intrigarem os brasileiros com seus líderes e com os chefes militares, afirmarem o contrário, estarão mentindo, estarão, como sempre, procurando engodar as massas trabalhadoras, que não lhes devem dar ouvidos. Confiamos em que o Congresso votará, rapidamente, as medidas reclamadas para que se inicie no Brasil uma época de justiça e harmonia social. Mais uma vez, o povo brasileiro foi socorrido pela Providência Divina, que lhe permitiu superar a grave crise, sem maiores sofrimentos e luto. Sejamos dignos de tão grande favor.”
__________________________
Leia também, aqui no blog, editorias de outros jornais da época, clicando no link abaixo:

quarta-feira, 19 de junho de 2013

e os cães ladram... e a caravana ... passa!


Enquanto 500 mil se expõem

às balas de borracha

gases e sprays

as negociações se fazem 


nos bastidores


aos goles de café


 amarula e black jonnie...


ou royal salut.



Redução de tarifa não basta. PASSE LIVRE SIM!! 
Reduzem a tarifa para o povo e aumentam a isenção para os franqueados? 
MENTIRA!! MANIPULAÇÃO!!
Atenção às negociações de bastidores. Os discursos passaram a se abrandar?? Mal sinal. Tudo já está negociado.


Reflexos das diferenças


Então os jornais
e os des.go.ver.nos
e os desavisados
bradam o vandalismo...


Não!


Apenas as diferenças 


em 


e.vidência.


Protestos pela revogação do aumento das passagens se fortalecem e continuam




A repressão da polícia a mando do governador Geraldo Alckmin (PSDB) e do prefeito Fernando Haddad (PT) fortaleceu os protestos em São Paulo. Agora, aqueles protestos pela revogação do aumento da passagem tornaram-se gigantes manifestações que refletem a insatisfação do povo com as prioridades dos governos. O Sindsef-SP está acompanhando de perto. 

Não é por 0,20 centavos. É por direitos!

Enquanto os governos Federal, municipais e estaduais alegam não ter verbas para reduzir o valor das tarifas do transporte coletivo, investem 30 bilhões em infraestrutura para receber a Copa do Mundo, que já é considerada a mais cara da história, com valor superior à soma das três últimas Copas.
O clima que tomou conta dos protestos é de inconformação com o fato dos governos traferirem para os megaeventos o dinheiro que deveria ser destinado à garantia dos direitos sociais fundamentais como saúde, educação, moradia e transporte público .
No caso específico do transporte, para além do discurso contrário à Copa, está a crítica ao alto lucro dos empresários do setor.  O próprio prefeito Haddad em entrevista à GloboNews, explicou a injusta divisão dos custos do transporte público: “a fatia do empresário é de 10%, a fatia do poder público é de 20% e a do usuário é de 70%”. Ainda segundo Haddad, no exterior a divisão é de 1/3 para cada.
Porém, a solução apontada pelo petista é não mexer no lucro dos empresários, aumentando o subsídio dado pela prefeitura.  Isto é, os trabalhadores pagam duplamente, porque pagam a passagem e os impostos.

Vem pra rua, vem! Contra o aumento!

Essa realidade levou mais de 65 mil pessoas, segundo pesquisa do Datafolha, à manifestação de ontem (17), iniciada no Largo da Batata, em Pinheiros.
Dessa vez, as vozes entoavam “Ah, coincidência, não tem polícia, não tem violência”. Isso porque todos os protestos anteriores, com destaque para o realizado na última quinta-feira, foram brutalmente reprimidos pela polícia e condenados pela grande imprensa por supostamente haver vandalismo. O 5º protesto deixou claro que  violência parte do Estado, não do povo nas ruas.
Por volta das 15h a estação de metrô Faria Lima e próximas à ela começavam a reunir os manifestantes. Às 17h o Largo da Batata já estava ocupado e, até o final da noite, pessoas não paravam de chegar para se somar ao movimento.
Uma parte dos participantes seguiu até a marginal Pinheiros, outra, ocupou a Faria Lima, e uma terceira parte foi para a Avenida Paulista. Os dois primeiros grupos se encontraram na ponte Octavio Frias de Oliveira. A maioria encerrou a passeata na Paulista.
A impressão que se tem no meio da mobilização, assim como quando se observa as imagens, é que o número de participantes apontado pela polícia e pelo Datafolha vai além. A cidade parou, e não parou isolada do restante do Brasil.

Manifestações sacodem o país

Em dias variados ou no mesmo dia, também aconteceram mobilizações no Rio de Janeiro (RJ), Brasília (DF), Belo Horizonte (MG), Juiz de Fora (MG), Viçosa (MG), Vitória (ES), Porto Alegre (RS), Curitiba (PR), Bauru (SP), Salvador (BA), Maceió (AL), Recife (PE) e outros municípios. Estima-se que, somente ontem, mais de 250 mil de pessoas preencheram as principais avenidas e espaços públicos pelo país afora, a exemplo da ocupação do Congresso Nacional, em Brasília.
A redução das tarifas já foi conquistada Porto Alegre (RS), Pelotas (RS), Natal (RN), Goiânia (GO) e em algumas cidades da Grande São Paulo.
As manifestações continuam em São Paulo. No final da tarde de hoje, milhares de pessoas se concentraram na Praça da Sé, partiram para a prefeitura e seguiram para a Avenida Paulista. O Datafolha estima que  50 mil pessoas participam deste 6º protesto na capital.


Por Lara Tapety / Sindsef-SP
Foto: AFP PHOTO/Miguel SCHINCARIOL 

domingo, 9 de junho de 2013

O facebook, o pensamento social e o compartilhar. Um ponto.


Unicorn Grocers in Chorlton, Manchester

Ethical economies of scale – can they really work?


100% envolvida no processo de pensar a cidade, a vida em comunidade, a necessidade do ser humano de repensar a distribuição das riquezas e a produção desde meu primeiro Congresso de Arquitetura em 1979, envolvi-me nos últimos anos de facebook com outras pessoas que vibram com a mesma sintonia: em busca de uma sociedade equânime e justa, onde os valores do consumismo irracional, o egocentrismo, o lucro e a necessidade de explorar para sentir-se bem sucedido e o desenvolvimento a qualquer custo não sejam mais entendidos como um bem ou necessidade para a humanidade.

E o facebook certamente tem uma função determinada pela espiritualidade que coordena a vida neste planeta. É incrível como nos vem sempre pessoas especialíssimas com quem podemos compartilhar ideais, discutir pensamentos e encontram-se, mundo afora, soluções para questões que podem vir a se tornarem factíveis para todos.

Para tanto, devagarinho, espera-se que a consciência de cada um se expanda com o todo, que os valores se regenerem e que os seres passem a perceber-se no outro.
Sempre compartilho aqui neste espaço as ideias que os amigos compartilham. Claro que com respeito aos créditos das citações, ideias e fontes.

Ontem, decepcionada com as postagens sujas, doentias, que considero profundamente equivocada, havia decidido eliminar meus perfis no facebook. Lá mantenho contato com muitos dos amigos que tenho encontrado em minhas andanças desde que passei a me entender por gente. Certamente é meu link com minha história de vida e compreensão de mundo.

Todos os processos históricos que nosso pais tem vivido tem nos levado a abrir mão de nossas riquezas, de nossa soberania, de nosso pródigo destino. É que a miséria da condição humana escraviza os bravos lutadores que se engajam em campanhas políticas e assumem lideranças, certos de que irão, de alguma maneira, dar sua contribuição. Mas a força das corporações escravizadoras tem vencido as batalhas. Afinal, por aqui não tempos homens-aranha, homens- morcego, capitães-brasil capazes de levar tantos coringas e vilões ao lugar que lhes cabe.

De vez em quando, no nosso caminho em busca da sociedade mais justa, encontramos homens e mulheres bem intencionados, intencionadas. Ai a gente ganha novo ânimo, entusiasmo e se entrega a elaborar propostas, soluções para problemas que, de fora, percebemos com enorme simplicidade de solução. A dificuldade é que o ego, aquele bicho enorme que se instala no peito dos eleitos, começa a corroer as almas, corromper os espíritos, de um jeito tão doentio que a maioria sucumbe em nome da manutenção do poder. Afinal, alianças são feitas, acordos fechados, financiamentos liberados para se chegar ao controle e tomar nas mãos as canetas do poder e, assim, mesmo os bem intencionados, cedo ou tarde, sucumbem diante das corporações, dos lobbies e dos grupos sanguessugas da sociedade, da cidade, do planeta.

Mas hoje surgiu uma situação publicada por um amigo especialíssimo do meu face que resolvi reativar num momento de introspecção. Refere-se ao “Supermercado das Pessoas”, uma situação desenvolvida na Inglaterra e pode ser adotada por qualquer sociedade que tem vontade de compartilhar vida de maneira mais justa.

Obrigada, Kirttan!
Segue a postagem.

Entenda como funciona um supermercado colaborativo, que não visa ao “lucro pelo lucro”
Lydia Cintra 24 de janeiro de 2012 

Ideias inovadoras são aquelas que desafiam a lógica do que está estabelecido entre as pessoas. E por serem inovadoras, quebram o conforto do que é conhecido e propõem uma forma diferente (e melhor, muitas vezes) de pensar e agir.
Quando o assunto é supermercado, as coisas funcionam mais ou menos assim: existe um dono. Este dono paga funcionários que mantêm os processos em funcionamento (limpeza, estoque, logística, caixa…). O espaço fica aberto para receber clientes, que escolhem os produtos dispostos em prateleiras, pagam por eles e vão embora.
Em Londres, um grupo de pessoas decidiu fazer diferente e romper com este roteiro pré-determinado. A primeira explicação está no nome: The People’s Supermarket, ou, O Supermercado das Pessoas. A ideia foi desenvolvida no começo de 2009 por Arthur Potts-Dawson, Kate Bull e David Barrie, inspirado no exemplo do Park Slope Food Co-operative, da cidade de Nova York, EUA.
Neste novo modelo, as pessoas tornam-se membros do negócio (e cada membro é também dono) e oferecem horas de trabalho voluntário. Assim, ganham, entre outras coisas, o direito a descontos nas compras. Além do preço menor para os membros, os produtos já têm o valor reduzido, uma vez que o quadro de funcionários fixos é bem pequeno em relação a um supermercado comum.
Segundo os criadores do “Supermercado das Pessoas”, o objetivo “é criar um comércio sustentável, uma empresa social que alcança o crescimento e as metas de rentabilidade enquanto opera dentro de valores baseados no desenvolvimento da comunidade”.

Conheça 15 características do The People’s Supermarket e entenda como funciona essa nova forma de comprar:
1. Não há bônus para chefes. Ou seja, não há a concentração da renda e dos lucros. Você pode se perguntar: como viver sem lucro? A ideia é justamente pensar fora da caixa e muitas vezes de forma antagônica ao que é considerado “natural”. Uma margem de lucro menor muitas vezes simplifica as coisas. Dinheiro nem sempre é a forma mais interessante de lucro;
2. A lógica é o alimento PARA as pessoas e PELAS pessoas. Não existe consumidor final. Existem pessoas que consomem e fazem a coisa acontecer. Segundo o Manual dos Membros, a ideia é a criação de um supermercado “que destaca as possibilidades do poder do consumidor e desafia o ‘status quo’.”
3. Quem é membro também é dono do negócio e tem poder de decisão. “Quando você se torna um membro, começa a dividir a propriedade do negócio. Quando você anda em um supermercado tradicional, anda na loja de alguém. Quando é um membro, anda dentro da sua própria loja”, diz o Manual.
4. Qualquer pessoa pode comprar no supermercado. Porém, quem se torna um membro tem alguns benefícios, direitos e responsabilidades a cumprir, como: pagar uma taxa anual de 25 libras, trabalhar voluntariamente em um turno de 4 horas a cada 4 semanas, comprar regularmente no (seu) supermercado, fazer “marketing boca-a-boca” (ou seja, falar do The People’s Supermarket para amigos, colegas, conhecidos, família…) e manter-se informado sobre o que está acontecendo na empresa.
5. Dedicação, energia e engajamento são as características esperadas para quem quer ser (ou já é) um membro;
6. Uma das intenções é conectar a população urbana com a comunidade rural local, provedora dos alimentos que abastecem as cidades;
7. É importante considerar que as pessoas estão prontas para as mudanças. Por isso, novos modelos de consumo devem ser colocados em prática e naturalmente serão bem aceitos pela população (ou pelo menos por parte dela);
8. Um dos propósitos do negócio é um supermercado que atenda as necessidades dos membros da comunidade oferecendo alimentos saudáveis e de alta qualidade, por preços razoáveis;
9. As compras são feitas de fornecedores confiáveis, com os quais o supermercado cria boas relações;
10. A produção de alimentos local, nas proximidades de Londres, tem preferência. Uma das regras é comprar produtos britânicos sempre que possível;

People’s Kitchen, a cozinha criada para evitar desperdícios
11. Um dos principais objetivos é reduzir ao máximo o desperdício de alimentos. Uma das formas encontradas para isso foi a criação de uma “cozinha-restaurante” que prepara pratos com alimentos que estão com a data de vencimento próxima. As refeições devem ser nutritivas e saudáveis, sem conservantes e açúcar em excesso, para os clientes levarem prontas para casa.
12. Ainda para evitar o desperdício, o supermercado faz compostagem, processo de produção de adubo feito com resíduos orgânicos;
13. Como valores do negócio, o supermercado proporciona treinamentos de habilidades para seus funcionários e voluntários que podem ser aplicados tanto no trabalho quando fora dele. A empresa, a partir deste prisma, deve ser um recurso de desenvolvimento para a comunidade como um todo;
14. O ambiente de trabalho é feito para que todos deem sua contribuição. Todos são bem-vindos e livres de julgamento. E qualquer um pode ser membro. Não há razões sociais, políticas ou religiosas que impeçam uma pessoa de fazer parte;
15. O local não vende cigarro.

Uma nova forma de estabelecer relações de compras passa pelo envolvimento de pessoas da comunidade no funcionamento do estabelecimento. Dessa forma, as pessoas se “apropriam” daquilo que faz parte do dia-a-dia (no caso, um supermercado) e fazem com que ele seja mais do que prateleiras que oferecem opções de (quase) tudo.
O modelo do The People’s Supermarket é interessante do ponto de vista da co-criação: pessoas, juntas, criam um espaço saudável de trabalho que substitui de forma bastante eficiente o modelo de consumo passivo que conhecemos hoje – que é, também, mais agressivo ao meio ambiente a às relações sociais estabelecidas dentro desse sistema.
Este espaço saudável inclui o sorriso que você dá para aquele vizinho que agora é colega de trabalho voluntário e organiza frutas nas gôndolas com você, inclui o cuidado maior que as pessoas aplicam naquilo que fazem quando o resultado está diretamente ligado a elas mesmas e a pessoas próximas e inclui, por fim, a sensação (agradável) de que o que está sendo feito gera um bem comum e não apenas o lucro pelo lucro.
Ou seja, um ambiente participativo é menos impessoal, mais caloroso e mais sustentável nas relações entre pessoas e meio ambiente.
(Imagens: Facebook/ The People’s Supermarket)

Era uma vez... O gatinho riscado.

E assim Diana aprendeu a mentir, manipular, trapacear...




Era um vez...
 

Família quase normal de classe média, pai funcionário público, mãe dedicada a atividades domésticas. Em casa sempre algum auxiliar que vinha do interior para estudar e, a título de ajuda, ajudava nas das tarefas da casa que vivia sempre cheia de visitantes do interior.

Certo dia, de volta de longa viagem, o pai chega com um amigo que traz de presente para as crianças, dois mimos embrulhados em papeis de presentes iguais. O conteúdo, porém era diferente: um gatinho e um cachorrinho de borracha.
Cada irmã abre um pacotinho. Maria encontra o cachorrinho e Diana o gatinho.
Maria, feliz da vida, corre pro colo da avó a mostrar o presente.
Diana, decepcionada, emburrada e trombuda, corre para o colo da babá chorando: - Eu não gosto de gatinho. Eu quero o cachorrinho.
A babá tenta fazer uma troca, mas a loirinha diz: - Não. Eu gostei do meu cachorrinho. Não quero trocar. O gatinho também é lindo, mas o cachorrinho é meu.


No dia seguinte, logo cedo, aos prantos e em gritaria,  Diana corre para os pais e mostra o gatinho todo riscado de caneta Bic. Aquela tinta é impossível de limpar em borracha e ela sabia disso:
- Mamãe, reclama Diana, Maria riscou meu gatinho. Você tem que trocar. Eu fico com o cachorrinho e ela fica com o gatinho que ela riscou com inveja.
- O pai, furioso, acorda Maria e exige que ela entregue o cachorrinho à irmã e lhe dá uns safanões para deixar de ser invejosa. Ao lado, agarrada às pernas da mãe, com ar de vitoriosa, Diana sorria entre as sobrancelhas. Maria dizia:- eu não risquei gatinho nenhum. Não vou trocar. Não é justo.

Ao ouvir os gritos e choros, a avó e a babá vem da cozinha em defesa de Maria e Diana. Cada uma, claro, em defesa da sua criança.
Maria levou os safanões, recebeu castigos e apesar da interferência da avó (com quem havia dormido e sabia que ela não tinha feito a maldade com o gatinho) poderia também brincar com o cachorrinho, mas o cachorrinho e o gatinho eram de ambas. Tudo afinal, naquela casa, era das duas filhas.
 
Diana, com aquele estardalhaço, conseguiu seu intento. Mentir e fazer escândalo, mobilizar a todos em função de sua situação de fragilidade de filha caçula lhe rendeu o gatinho e o cachorrinho por que, afinal, para Maria, ela sim estaria ganhando por que então teria a chance de brincar com sua irmã ( mesmo obrigada pela situação que ela própria criara), com o gatinho e com o cachorrinho. De quem era, na verdade, não importava. O que ela queria era a amizade e o carinho da irmã.
 
Não ficou claro, jamais, quem riscou o gatinho de caneta Bic, mas, decerto, o escândalo surtiu efeito nefasto na personalidade de Diana e no emocional de Maria. Maria sabia que não tinha riscado o gatinho. Poderia ter sido Diana ou qualquer outra pessoa da casa. Menos ela. E deu-se por satisfeita com o desfecho do drama. No entanto, aquele fato determinou uma deformação na personalidade de  Diana que,até hoje, guarda os brinquedinhos de borracha.

Talvez um troféu.