domingo, 14 de maio de 2017

REFORMA POLÍTICA: TECNICIZAR, MODERNIZAR, LIMPAR.

Precisamos de moralizar de uma vez por todas o sistema eleitoral.
Urge a reforma parlamentar séria, radical e consciente.
As despesas com gestão pública,  custos administrativos e organização dos poderes precisam de ser reduzidas drasticamente para que o país   entre na rota do desenvolvimento sustentável.
Por isso,  assim propomos o fim  da remuneração dos cargos de Vereador, Deputados e Gestores Municipais e Estaduais:
  •  Câmara Municipal será composta por cidadãos de reputação ilibada, probos e merecedores do respeito da população.
  •  Extinguem-se todos os cargos comissionados.
  •  Todos os cargos serão  alvo de concurso público com plano de carreira para a tecnicização imediata da política.
  •  Vereador, Deputados e Gestores Municipais e Estaduais serão serviço voluntário e com duração máxima de 2 mandatos.
  •  A remuneração dos eleitos será a mesma que os cidadãos recebem enquanto profissionais, de acordo com sua categoria e emprego no momento da eleição, pagos pelo governo Municipal, Estadual ou Federal, conforme instância administrativa  da prestação do serviço.
  •  Cargos assumidos sem regime de exclusividade não terão remuneração e contemplarão carga horária de até 6 horas diárias.
  •  Extinguem-se todos os benefícios, comissionamentos e aposentadorias extra, passando os representantes políticos a ser remunerados e aposentados de acordo com sua prestação de serviço profissional.
  •  Poderão candidatar-se e ser eleitos, brasileiros com idade superior a 21 anos de idade e no gozo de seus direitos políticos.
Vamos  pensar nisso juntos e propor essa mudança na Constituição Federal?
Comente aqui. Proponha!

sexta-feira, 7 de abril de 2017

ASSOCIAÇÃO NA CONTRAMÃO

  

Base fundamental do associativismo e organização social, o respeito é o agente agregador mais eficaz na construção de sociedade justa, participativa, equânime.  Tudo o que é montado com o intuito de forçar, intimidar, constranger para obrigar pessoas a atenderem ao desejo e objetivo de quem quer que seja é desrespeito. Qualquer associação fundamentada no desrespeito tende ao fracasso.

Por que as associações esvaziam-se e fragilizam-se com tanta frequência?  
Por que a cada dia as assembleias reúnem um menor número de participantes?
Associações de moradores -reunião de pessoas com objetivos em comum - muitas vezes são constituem situações invasivas e espoliativas que se instalam quase sempre a partir de posturas e atitudes de um pequeno grupo que passa a agir politicamente no interesse único e claro de impor suas vontades ao todo: dominar, forçar, obrigar. Partindo do princípio que associação reúne pessoas com objetivos em comum, e a partir daí a regra constitucional de ninguém ser obrigado a se associar, o simples fato de um grupo querer dominar e obrigar outro transforma tudo num centro de discórdia, desunião, fragmentação. Tudo menos associação.

Muitas vezes motivados por interesses nada lícitos, pessoas com alguma capacidade de comunicação utilizam-se de suas potencialidades para dominar, constranger. Assumem comando sem liderança real por que nada que tem interesse particular tem legitimidade para representar o todo. Fazem assim os políticos. Manipulam informações, forjam dados e se utilizam de cargos ou funções para mentir e ludibriar. Os que não conseguem atingir patamares de poder em esfera maior (como deputados, prefeitos, senadores) assumem postura semelhante nos pequenos grupos. Pior é que, às vezes, por algum tempo, logram êxito. Muitos cedem às imposições embora nem concordem por pura acomodação, medo pela intimidação e assédio moral ou simplesmente pela opção de se manter alheio aos processos da vida social. Preferem pagar para se livrar. 



Certamente isso tudo se inicia com a ausência de princípios éticos que deveriam ordenar as relações sociais e a ausência deles é o agente causador de desarmonia. Uns se intitulam ateus, como se fora isso um grande mérito de inteligência superior. Outros agnósticos, por que consideram-se acima de qualquer forma de identificação religiosa como se fossem os demais menos inteligentes ou menos capazes intelectualmente.  Outros professam fé religiosa mas distanciam-se dos princípios éticos que deveriam religar ao Deus que veneram. Cada qual no seu quadrado, com suas convicções e assim caminha a humanidade.
Enfim... Espera-se, por exemplo, que professores, mestres, doutores e detentores de grande volume de informação intelectual fossem portadores de informações verdadeiras. Ao contrário, pessoas inescrupulosas utilizam-se de sua formação intelectual a serviço próprio como instrumento de autopromoção e exacerbação do ego. Mentem!

Certas situações carecem de terapia. Muitas, de fato. Pessoas que compartilham ambiente físico numa determinada localidade, espera-se que tenham ao menos algo em comum além do medo. Pessoas fortalecidas pela amizade, respeito, cuidado não se intimidam por qualquer razão. Medo da presença de pessoas diferentes precisa de ser alvo de tratamento terapêutico, por vezes psiquiátrico e isso não constitui motivo de vergonha.  ´

Escolhe-se morar perto da natureza por que gosta dos animais, das árvores, do som da mata.  Outros escolhem morar num edifício por que gostam de privacidade e/ou dispõe de pouco tempo para dedicar à casa. Alguns gostam de cachorro, outros de gato, outros preferem videogames e amigos virtuais. Preferem estar perto da vida urbana com a possibilidade de se fecharem em seu reduto... sabe-se lá. Cada qual com suas escolhas e preferências. Leis existem para regular essas relações de vizinhança e convívio social.
O que transforma a vida em Associação em situações desarmônicas, tristes, cheias de pessoas depressivas, isoladas, constrangidas e convivência completamente insuportável?

Por que a maioria dos moradores de edifícios deixam de participar das reuniões e relegam decisões que interferem inclusive em sua qualidade de vida e renda familiar, despesas indesejadas e imcompatíveis?
- Por que a imposição de regras forjadas e forçadas torna a convivência insuportável. Reuniões de moradores são cenário de exaltação egocêntrica, gritaria e grosseria. Palco de dominação política. 

Respeito gera respeito.
Invasões atraem invasões.
Desamor gera infelicidade.


PRETENDE ADQUIRIR LOTE OU CASA NO CHÁCARAS DA LAGOA EM MACEIÓ?
FIQUE SABENDO:
- o Loteamento Residencial Chácaras da Lagoa foi implantado em 1986, dotado de canalização de água potável, poços e sistema de distribuição de água com caixa d1água, ponto de energia elétrica e alguns equipamentos de lazer.
- O Loteamento Residencial Chácaras da Lagoa NÃO é um condomínio, portanto, ninguém é proprietário da Praça Dr Hamilton Falcão, nem das áreas verdes, nem das ruas e calçadas, nem dos equipamentos urbanos de lazer.
- Associações não podem impor que alguém se associe sem que seja expressa livre e espontânea vontade. Não existe associação por coação. Todos tem o direito à liberdade de escolha.
- Débitos de condomínio inexistem por que a associação é livre e assegurada pela Constituição Federal Brasileira. Ninguém tem que pagar nada à Associação antes de adquirir seu lote ou casa.
- Ninguém é obrigado a pagar taxa condominial nem taxa de associação se não desejar ou não concordar com o valor cobrado.
- Morar numa rua, cada qual com sua unidade familiar autônima é a escolha de quem decide morar num Loteamento. O elemento de união entre as pessoas deve ser, portanto, defesa de interesses comuns que contemplem as diferenças e as respeitem.
- No Loteamento Chácaras da Lagoa não existe condomínio sem fração ideal a condominiar nem codominar por que ninguém é dono da rua, da praça, do poço, da mata, do mato, do céu nem do ar.

- Caso a taxa cobrada pela Associação de Moradores não seja compatível com sua renda familiar e plano de despesas, não se intimide. Nada lhe obriga a fazer parte de nenhum rateio de despesas que um determinado grupo de pessoas resolve fazer em área pública, responsabilidade da municipalidade. 

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Eu também fui molestada quando criancinha


Acabo de ler mais uma dessas mensagens compartilhadas no whatsApp.
Imensamente grata pelo gatilho para mais um insight muito importante em meus processos de autoconhecimento: a invasão física ou emocional de estímulos sexuais na infância causa traumas e bloqueios além de problemas emocionais que às vezes uma vida apenas não basta para superar.








 
“ A sociedade de psicólogos está com a campanha: Criança não namora.
A Criança se relaciona com os amiguinhos e eles são simplesmente amigos. Amizade é o nome. Insistir em namoro na infância é adultizar as crianças, incentivar a erotização precoce. A indústria de brinquedos, roupas e cosméticos já investe tanto na adultização infantil! Não vamos fazer o mesmo. Não é engraçadinho incentivar beijinhos de namoro ou declarações de amor entre as crianças. É nosso papel separar o mundo adulto do mundo infantil. Misturar os dois mundos é cair no erro da erotização precoce. A infância precisa de proteção e não de adultos que afastam a criança daquilo que é próprio pra idade dela.
Ajudem-nos a conscientizar os pais e responsáveis!
Compartilhe! “
Recebido pelo Whats App 


Imediatamente após à leitura dessa mensagem me veio a sensação terrível de paralização, terror, tontura, náuseas, turvamento da visão e a total capacidade de ação que senti a vida inteira por inúmeras e todas as vezes em que percebia algum estímulo ou menção à minha sexualidade.  Ainda zonza e com dificuldade para digitar e organizar as ideias, resolvi escrever tudo aqui conforme faço no caderno dos sonhos para não perder nenhuma sensação ou lembrança. Depois resolvo o que fazer com o texto.


Passaram-se 19 anos desde as minhas experiências na Índia até que eu pudesse compreender aquele desenho que deixou perplexas as terapeutas no workshop “opening to the heart”.

O fato é que embora os mais de 35 anos de terapias, experiências de terapias de vidas passadas, regressão, meditações de OSHO e tantas técnicas que experimentei, o único elemento que me fez superar o trauma da molestação da infância foi o amor incondicional que recebi de Francisco quando, certa noite, em sua companhia, acordei aos prantos, lembrando de cenas que me fizeram compreender meus medos de me relacionar, medo de falar, medo de me expor, medo de enfrentar a vida e situações de conflito, medo de tudo.

Então os amigos dizem: mas você nem é tímida... Ao contrário, amigos! Embora todas as limitações, reconheço em mim um ser humano forte e determinado. Decidi não me deixar intimidar e superar qualquer situação na minha vida. Minha vida!  A fortaleza está na determinação da auto superação. Tenho medo sim, mas enfrento a todos. Sabia que um dia chegaria a este momento de superação e também o medo de me expor seria superado.

É vital que todos tenham consciência de que essa conversa de liberação feminina é apenas mais um instrumento de dominação machista. Nada há a liberar quando há amor por que o próprio amor liberta. A falácia da liberação é mais um elo da corrente que aprisiona pessoas independente do gênero através do sexo – então instrumento de dominação.



Havia na Velha Cap o grupo dos “bichas” que passavam a noite (provavelmente continuam nessa missão de distribuição de chinelos e bonés) a aliciar meninos de 8 a 12 para “formar seu público quando tivessem com o QUÊ brincar “na adolescência, disse-me um travesti a me confidenciar fatos que nem me deixaram chocada diante de tanta coisa mais que vi ali. O primeiro impulso sexual deixa uma marca e é ele quem define a opção sexual, segundo ele. “ você pensa que esses cabras machos  todos casados são fiéis? Todos aprenderam com o garçom e gostam é de meninos. Escaparam poucos, hahahahaha. Se antes aprendiam com as cabras, agora aprendem com a gente”. E se vangloriava do quão espertos são.


Eu tinha uns 4 ou 5 anos e meus pais jamais souberam o que passei. Minha avó passava alguns dias comigo e me protegia. O resto do tempo estava só. Minha irmã tinha proteção. Acredito que ela não teve as mesmas experiências. 
Menos mal!!!

APELO. POST SCRIPTUM.
Srs Pais!!
Jamais deixem seus filhos sob cuidados de pessoas cuja origem familiar vocês não conhecem. Formação e caráter não se aprendem.
Mães!
Jamais  confiem piamente nos companheiros que não são os pais de seus filhos e filhos. Observe, vigie, cuide com toda atenção do mundo. Qualquer pessoa pode passar por pressões e frustações emocionais que em algum momento podem aflorar.

sexta-feira, 31 de março de 2017

Princípios do associativismo

O SEBRAE – Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresasdefende que o associativismo se rege por um conjunto de princípios:
  • Princípio da Adesão Voluntária e Livre
As associações são organizações voluntárias, abertas a todas as pessoas aptas a usar os seus serviços e dispostas a aceitar as responsabilidades de sócio, sem discriminação social, racial, política, religiosa e de género”;
  • Princípio da Gestão Democrática pelos Sócios
As associações são organizações democráticas, controladas pelos seus sócios, que participam ativamente no estabelecimento das suas políticas e na tomada de decisões. Os homens e mulheres, eleitos como representantes, são responsáveis para com os sócios”.
  • Princípio da Participação Econômica dos Sócios
Os sócios contribuem de forma equitativa e controlam democraticamente as suas associações através da deliberação em assembleia-geral.
  • Princípio da Autonomia e Independência
“As associações são organizações autónomas de ajuda mútua, controlada pelos seus sócios”. Podem entrar “num acordo operacional com outras entidades, inclusive governamentais, ou recebendo capital de origem externa, devendo fazê-lo de forma a preservar o seu controlo democrático pelos sócios e manter a sua autonomia”.
  • Princípio da Educação, Formação e Informação
As associações devem proporcionar educação e formação aos sócios, dirigentes eleitos e administradores, de modo a contribuir efetivamente para o seu desenvolvimento”.
  • Princípio da Interação
As associações podem satisfazer as necessidades dos seus sócios mais eficazmente e fortalecer o movimento associativista, se trabalharem juntas, através de estruturas locais, nacionais, regionais e internacionais.
  • Princípio do Interesse pela Comunidade
As associações trabalham pelo desenvolvimento sustentável das suas comunidades, municípios, regiões, estados e país através de políticas aprovadas pelos seus membros”.
Estes princípios são importantes não só, para as associações mas também, para a construção da sociedade. Estes contribuem para o desenvolvimento económico e social de uma sociedade cada vez mais solidária, democrática e com autonomia de gestão, como preconizado pelo Princípio do Interesse pela Comunidade.

quinta-feira, 30 de março de 2017

Os mandamentos de Ifá



Para aqueles que penssam que a religião (candomblé, Umbanda, culto a Ifá, etc) não tem seus preceitos de conduta veja abaixo os Mandamentos de Ifá,  que vale para todos que cultuam o Orixá. No final do artigo contém um video com babalawo nigéria recitando um Oriki de Ori (nossa cabeça)
Muitos andam pela vida sem rumo e acaba indo buscar os conselhos de Ifá (Deus da adivinhação). Este era o caso dos ancestrais que buscaram cobrar de Ifá a promessa feita por Olodumare (Deus), que dava a eles uma vida longa.

Assim Ifá advertiu:
1 - não digam o que não sabem (èsúrú pode ser tanto uma conta sagrada como um nome de uma pessoa);
2 - não façam ritos que não saibam fazer (novamente avisa não troquem a conta sagrada pelo nome);
3 - não enganem as pessoas (trocando a pena de papagaio por morcego);
4 - não conduzam as pessoas a uma vida falsa (mostrando a folha de Iroko e dizendo que é folha de oriro);
5 - não queiram ser uma coisa que vocês não são (não queiram nadar se vocês não conhecem o rio);
6 - não sejam orgulhosos e egocêntricos;
7 - não busquem o conselho de Ifá com más intenções ou falsidade (Àkàlà é um título usado para Orumila);
8 - não rompam (não mudem) ou revelem os ritos sagrados, fazendo mal uso deles;
8 - não sujem os objetos sagrados com as impurezas dos Homens; busquem nos ritos sagrados somente coisas boas;
10- os templos devem ser lugares puros, onde a sujeira do caráter humano deve ser lavada;
11- não desrespeitem ou inferiorizem os que têm maior dificuldade de assimilar conhecimentos ou deficiências no caráter, ajude-os a mudar;
12- não desrespeitem os mais velhos, a sabedoria está com eles, a vida os fez aprender;
13- não desrespeitem as linhas de condutas morais;
14- nunca traiam a confiança de seu semelhante;
15- nunca revelem segredos que lhe são confiados; falar pouco e somente o necessário demonstra sabedoria;
16- respeitem os que possuem cargos de responsabilidade maior; o Babaláwo é um Pai, portanto, é devido grande respeito aos Pais.

Mas os ancestrais não cumprem as determinações de Deus, trazidas e mostradas por Òrúnmìlà. Deus usa os Orixás para advertir o Homem, mas não obtém sucesso. O Homem não ouve os conselhos. Mesmo assim, em erro, o Homem ainda acusa a Orunmila. Mais uma vez não reconhecendo seus próprios erros. O Homem tem esse hábito, o de culpar os outros pelas suas maneiras erradas.
Diante de tais atitudes, Deus fica desobrigado de cumprir Sua palavra com o Homem, permitindo então que o Homem morra idoso e venha a renascer jovem, para que uma nova caminhada de aprendizados se inicie, em outra vida, em outro lugar, e quem sabe assim, nessa nova etapa, o Homem aprenda os mandamentos de Ifá pondo fim a esse ciclo sofrido.
Assim se repetirão esses ciclos, até que o Homem aprenda a mudar, tornando-se um Egúngún Àgbà (Ancestral Ilustre) que recebe funções mais importantes no Òrun (no Além)!

segunda-feira, 27 de março de 2017

Erro grosseiro??


Crescemos numa rua fechada e ninguém era “dono da rua”.


Passados 40 anos desde nossas festas na garagem e brincadeiras de rua, reencontramo-nos alguns no casamento de Duca. Decidimos mover esforços para um grande reencontro dos amigos da Rua Professor Edgar Altino. A alegria desse reencontro aconteceu alguns meses depois num encontro no Bar Real, próximo da nossa velha rua. Emocionados, revivemos momentos de alegria e descontração. Reavivamos o carinho da infância e adolescência. Desde a formação do grupo no facebook e no whatsapp, voltamos a participar bem de perto das vidas dos amigos da rua, compartilhar as emoções, estar perto embora longe.

Desde o primeiro encontro, sucederam-se alguns encontros inesquecíveis com a presença de boa parte da turma, inclusive alguns pais - a turma da velha guarda, grandes exemplos para todos nós. Ocorreu-me pensar no vínculo que mantém tantas pessoas que trilharam caminhos tão distintos coesas de maneira tão forte que, independente do estilo de vida e padrão social. Somos sim amigos para sempre.

A Edgar Altino surgiu num desses conjuntos residenciais feitos pelo Banco do Brasil, financiados pelo BNH na década de 60. Meus pais mudaram-se para lá em 1961. Ele engenheiro do DNOCS, em frente, Dr. Geraldo, engenheiro do DNER e Dr. Manoel, engenheiro da COMPESA. Mais adiante, Dr. Arnaldo, empresário, Dr. Hélio, Arquiteto, a maior família da Rua . . .Todos tinham a mesma faixa etária, vivendo o mesmo momento de construção da família e da vida, filhos com idades bem próximas, aproximadamente o mesmo padrão de vida... certamente isso tudo e o mangue no fim da rua que transformava aquele espaço num local sem movimento de carros certamente foram elementos determinantes para o desenvolvimento de nossa amizade.

Brincávamos todas as tardes depois das tarefas escolares e, na adolescência, a noite até o chamado dos nossos pais para dormir. Somos verdadeiramente abençoados e privilegiados. Tivemos a oportunidade de crescer juntos em comunidade harmoniosa onde o respeito sempre foi algo natural. às vezes penso que a maioria dos brasileiros do tempo da Educação Moral e Cívica e aulas de Religião no Colégio aprendemos com nossos pais que Ética, Caráter, Moral, respeito e Amor são uma corrente inseparável e indestrutível.

Somos do tempo em que o carrinho do sorvete, da pipoca, o moço do quebra-queixo e o do cavaco chinês passavam na porta de casa todas as tardes e as crianças todas esperávamos pela hora das guloseimas depois de terminado o dever de casa. Passamos pela fase do passeio no braço da babá para o banho de sol matinal, depois o passeio de carrinhos, os velocípedes, bicicletas, mais tarde o queimado, amarelinha, bola de gude até as tertúlias e festas de garagem.


Quando Xande ficou mais alto comprou uma rede e uma bola de vôlei. Nessa época, o queimado teve que passar para o fim da rua. Os postes paralelos ficavam entre a casa de Seu Braga e a casa de D Mocinha, do outro lado da rua.
Nossas mães sempre foram exemplo de integridade, carinho, amor, cuidados. Tínhamos o horário de fazer o dever de casa logo depois do almoço e éramos liberados para brincar na rua depois do lanche da tarde. Muitas vezes, quando a brincadeira da tarde era na casa de alguma vizinha, éramos presenteados com um bolo de chocolate, rabanadas, biscoitos e sucos na casa das amiguinhas. 

Brincávamos de bonecas, andávamos de bicicleta rua acima e rua abaixo. Os mais atrevidos fugíamos para a Praça de Casa Forte e até ao Colégio, buscar jambo, ou comprar chicletes ping-pong na barraquinha da esquina da Praça.
Refrigerantes, apenas nas festas de aniversário. Tomávamos suco de frutas e de vez em quando também recebíamos ki-suco com biscoitos. Tínhamos o clube do Chiclete, das bonecas e roupinhas de papel, os meninos também tinham suas brincadeiras. São amigos até hoje.

Quando meu pai fez o primeiro andar, depois da cheia de 1969, passamos a brincar também no sótão (a parte da casa que tinha telhado mas ainda não estava completamente construída. Ali era nossa casa de bonecas. Lá, eu e minha irmã construímos nosso esconderijo secreto.

As festas da garagem eram especialíssimas. Muitas paqueras que jamais haviam sido reveladas foram por fim descobertas no primeiro reencontro, mais de quarenta anos depois.

Relações de vizinhança que se fortaleceram com a convivência de mais de 20 anos até o momento em que a maioria foi levado pelo destino para outros lugares. Cada reencontro é uma alegria imensa. 



terça-feira, 7 de março de 2017

As quatro estações


Monica Vasconcelos



Todo sonho não realizado se torna uma frustração.  Baseada nessa crença, aos 55 anos, resolvi realizar o sonho de viver as quatro estações, era um desejo latente e antigo, mas a idade tornou ainda mais urgente sua realização. Viver cada estação, no meu mui humilde entendimento, significaria também vivenciar melhor essa etapa da vida de absoluta e difícil transição.

Sempre parti do princípio que, embora cada ser seja único e especial, o ser humano é basicamente o mesmo, somos iguais por mais diferentes que pareçamos. Para além do egocentrismo, tudo que deduzi sobre a vida, por mais que tenha observado os outros, acabou sendo baseado em mim mesma, simplesmente porque parto do pressuposto que, se mesmo a mim ainda desconheço, o que dizer dos outros?!

Penso que comecei a amadurecer quando percebi que tudo aquilo que me incomodava nos outros, era, via de regra, tudo aquilo que negava em mim mesma. “Trabalhar” melhor o meu “próprio ladinho dark”, aceitar todos os defeitos inerentes ao ser humano, e, a partir dessa aceitação, tentar manter na coleira invejas, rancores, desejos de vingança e todas essas mazelas dos seres ditos racionais, se não me tornou mais suportável para os outros_ e lastimo muito por isso; tornou a vida mais leve e amena para mim mesma_ e fico muito contente com isso.

Ajudou-me bastante nesse processo as conversas com o espelho e a escrita, ainda na infância, de sentimentos negativos, posteriormente rasgados como os papéis que os continham; e a leitura dos clássicos da literatura. Busquei nos livros muitas respostas. Aos 20 anos, encontrei em “A Queda” de Camus, alívio para muitas de minhas angústias. Todo sublinhado, marcado, repleto de rabiscos e observações “La Chute” foi minha “bíblia cética”. Juntamente com Fernando Pessoa e seu “Poema em Linha Reta”, Monsieur Camus, muita análise e terapia me ajudaram a atravessar a primeira transição verdadeiramente seria da vida: a entrada na realidade do jovem adulto. Que me perdoem os que falam das dificuldades da adolescência, às favas com elas, difícil mesmo foi ser adulto.

Difícil mesmo foi ser adulto? Oh, Oh... Eu escrevi isso? Já não tenho mais essa certeza... Difícil mesmo vai ser SER velho. Não existem mais as respostas idólatras dos livros da juventude... Resta-me eu mesma.

Continuo observando e tentando aprender com todos, mas perdi completamente o pudor de escrever na primeira pessoa. Sempre fui “meio diferente”, para usar a expressão que ouço desde infância, mesmo no convívio familiar. Nunca me preocupei com que os outros iriam, ou não dizer, mesmo por que sempre considerei essa “preocupação” a coisa mais verdadeiramente egocêntrica do convívio social_ por que p... alguém perderia tempo a falar de mim?! Bom, o tempo e a vida me ensinaram que pode não ser bem assim. Percebi o quanto fui incompetente na observação de mim mesma quando descobri que muitos dos meus amigos eram, ou acreditavam ser, quase PhD em mim!!! Estamos sempre a precisar de rever os tais conceitos...

Esse meu comportamento, inconscientemente incorrigível, se por um lado me isolou, por outro me protegeu do convívio social, às vezes emocionalmente exaustivo. Aprendi a transitar entre o social e o individual. A solidão nunca me assustou. De uma forma ou de outra, convivo com ela desde essa minha infância “diferente” às tentativas de busca de “alma gêmea” e outras balelas românticas que nos enfiaram na cabeça, ou que de alguma forma incorporamos. Desse convívio surgiu um casamento harmonioso. Amo estar só, e esse amor liberal me permite estar acompanhada, e quando assim me sinto, também deliciada fico.

E por que, então, se tenho tantos amigos especialistas em mim essa nova angústia para mais uma simples transição de fase da vida? Quiçá por perceber que assim como na juventude, ainda me falta essa tal crença de se achar importante o suficiente para ser percebida, menos ainda para virar “case” seja lá de quem for. Porque é ÓBVIO, que mesmo que eu o vista como a uma luva, nem o Poema em Linha Reta, nem nenhum outro foi escrito para mim. Poemas, mesmo quando escritos para musas, são a catarse do autor, o outro é o coadjuvante o instrumento. E não há nisso nenhuma crítica ou demérito.

Angústia? Oh, Oh... Eu escrevi isso? Já não tenho mais essa certeza...Das duas janelas do cafofo que aqui habito, vejo a neve começar a derreter nos Pirineus...Já lá se foram o verão, o outono e o inverno. Que estranha coincidência essa de só ter vontade de escrever quando as primeiras cores da primavera desabrocham aqui e acolá... Angústia? Mesmo? Por que? Ser jovem adulto, para mim foi muito custoso, por muito pouco não me matei...Hoje me sinto privilegiada por isso e por tudo que vivenciei depois. Que venha a velhice. Quiçá será ela, justamente a primavera, quando finalmente estarei pronta, qual florzinha espinhosa, para ser colhida pela Senhora Morte, em cujos braços, finalmente, me sentirei aconchegada.

Acho que continua ;-)

sexta-feira, 3 de março de 2017

O Mal da Calúnia e da Difamação


Confesso: há muitos anos carrego comigo uma culpa imensa que me dói na alma. O Restaurante era furtado diariamente.  Gang de garçons e, garçonetes, auxiliares e cozinheiros levavam comida, bebida, utensílios. Certo dia foi constatado, além de tudo isso, sumiço de dinheiro do caixa e o office boy foi indicado pelo comprador como suspeito. Era uma rapaz de 18 anos que precisava muito do emprego para estudar na cidade. Cícero era um bom menino, educado, honrado.

À época, movida pela pressão da situação inteira, aceitei a denúncia e despedi o rapaz. O olhar de revolta, frustração e indignação dele demonstrava que aquela era uma injustiça terrível. A inexperiência de 26 anos atrás me levou a cometer essa injustiça da qual não me perdoo e, todos os dias, em minhas orações peço perdão àquele espírito injustiçado por mim. Tenho – hoje – total consciência da dor que aquele jovem sentiu. 

O propósito das situações colocadas por Deus em nossas vidas é sempre desconhecido até que nos permitimos desprendermos de nossos egos imensos que devoram nossas consciências e nos admitimos inteiramente insuficientes na percepção da dor alheia. À medida em que olhamos nossas dificuldades e insuficiências de frente, tornamo-nos capazes de perceber o quanto estamos distantes da divinização e da santidade a que nos dispomos.  

As motivações egocêntricas e egoístas nos levam a cometer delitos imperdoáveis contra as outras pessoas, sempre com a convicção da razão e do direito: por que sempre pensamos no nosso umbigo, nossos problemas, nossas vidas. As vidas alheias -  espelho de nossas dificuldades – passam desapercebidas ou ignoradas e, com isso, desperdiçamos as oportunidades maravilhosas de aprimoramento espiritual, amadurecimento e crescimento enquanto seres humanos. Muitos adquirimos loquacidade, tenacidade, sagacidade e acúmulo intelectual, diversos processos mentais que levam nosso ego a crer nos direitos que nos convencemos de ter.
Ilusão! Cada sofrimento causado a outrem se reflete drasticamente e de maneira contundente em nosso destino, nossa felicidade. Todo mal causado a outrem se reflete em nossas vidas em mal semelhante ou de maior intensidade. Depende apenas de quantas vezes persistimos no equívoco. Quanto maior a certeza egocêntrica da impunidade pelo engano da desculpa da boa intenção, maior o equívoco. Quanto maior o mal causado, maior a consequência: seja nesta vida ou em vida posterior. Isso se reflete em todas as pessoas de nossa relação por que somos todos conectados em espírito em todos os reinos da natureza.

Recebi a paga daquela injustiça e pago o pecado há anos. Qualquer motivação dos meus algozes, embora torpe, espelha a injustiça que cometi. A pressão do momento, a inconsequência, fragilidade, o que for, não justificam a falta de sensibilidade: naquele momento eu estava ocupada em sobreviver aos transtornos causados por mim mesma ao assumir responsabilidades além da minha capacidade de suportar pressão social, emocional, física. 

Adoeci. Se a calúnia lançada contra mim foi capaz de me colocar em profunda depressão por tanto tempo, imagino o que aquele rapaz sente até hoje, sem a chance de receber meu pedido de perdão.

Há algo, porém, que redime a tudo em nível espiritual: o reconhecimento da culpa e a responsabilidade no pedido sincero de perdão. No campo da materialidade, o sistema de gestão da vida trata de colocar tudo dentro da normalidade e as farsas, cedo ou tarde, são desmascaradas.

Nada fica impune.
Tudo tem recompensa.

Josevita Tapety Pontes
03.03.2017

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Praça das Vitórias



Meias janelas abertas ao vento
Beiral curto beira-e-bica
piso em tijoleira e pedra fria a absorver a luz do zol
esfriar o chão
Ao entardecer, cadeiras na calçada, a conversa costumeira
A porta principal em madeira da acesso ao largo corredor
de onde se vê a claridade que vem do fundo do quintal
e do pátio central da casa.




À primeira porta a sala do santo
depois o salão, o gabinete do chefe da família
os quartos de dormir.
Ganchos para redes em tufos de madeira
Dos fundos ouve-se o movimento da cozinha:
Negras com mãos de fada preparam o arroz com carne
a paçoca batida no pilão de aroeira.


A lenha no fogão esquenta a saborosa sopa
NO forno, o leitão, o bolo de sal, a rosca, o bolo corredor
às seis da tarde, o sino da Matriz anuncia a Hora do
Ângelus
Vindo da cozinha, o cheiro do café fresquinho
convida a família para a janta.
Silência na praça das Vitórias.

O céu estrelado de oeiras...

Ao amanhecer, o sol brilhante
por trás da torre da Matriz acorda o sino
que chama para a missa matinal.

Mais uma vez, o cheiro do café, lá da cozinha
convida ao cuscuz com ovos fritos
no café-da-manhã  sertanejo.

Josevita Tapety Pontes
Oeiras, Dez/2006.

A voz do coração








...
sempre certa
precisa
exata.
Ah se a mente 
não perturbase
e sabotasse tanto
e tudo
e sempre...
Ah se a mente
não aprisionasse tão forte
e sempre
e tudo...
Ah se a escolha
fosse
sempre
do coração...
Se...
se...
se...
Ah se
não houvessem tantos ses.
sós
sempre.

 Josevita Tapety
21/02/2011



terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Somos Todos Um




As adimensões em sintonia, unificam-se. O desconhecido nada tem de místico. mistifica-se apenas o que se ignora.  

1. Nada ocorre por acaso.
2. Despertos, redefiniremos o universo energético e sagrado.
3. Tudo ao nosso redor constitui-se e se origina da energia divina que estamos começando a perceber.
4. A descoberta da fonte inesgotável da energia que emana do amor, centelha divina, não mais haverá medo, domínio ou necessidade de imposição pelo poder.
5. A transformação interior que nos conecta com o divino e nos preencha com amor incondicional redimirá a humanidade nova.
6. A elevação da consciência com a dominação do ego levará a humanidade a concretizar o plano divino.
7. Determinados a participar dessa evolução, nossa propria consciencia nos mostrará o caminho.
8. A elavação da consciência do maior número de pessoas elevará a consciência da humanidade e seremos capazes de perceber a sintonia com o universo.
9. A elevação da consciência, a vibração no amor incondicional e altruísta conduzirá a humanidade ao paraíso na Terra.
10. Somos todos um.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

A criminosa venda da água

A imagem pode conter: 1 pessoa



De acordo com a Lei Federal 9.433 (art. 1º, II, art. 5º, IV), de 8 de janeiro de 1997, a água passou a ser considerada “um recurso natural limitado, dotado de valor econômico”. Ou seja: a água passou a ser mercadoria. E isso vale para qualquer água — conforme se verá adiante, na transcrição dos textos constitucionais concernentes. Para vender a água ao povo, esta famigerada lei engendrou as arapucas chamadas “Agências de Água” (art. 44, III). O fato da lei (em seu art.18) dizer que a outorga (aprovação, permissão) não implica alienação (cessão) parcial das águas — “que são inalienáveis” — e sim o simples direito de uso, não passa de jogo de semântica do legislador. No caso, o “direito de uso” é pago e, de fato, constitui venda.
As águas não voltam ao suposto dono, mas se transformam em mercadorias (verduras, legumes, grãos, forragens, água tratada, etc.) que são depois vendidas ao povo. A parte que se evapora — bastante considerável, principalmente nos sistemas de irrigação das lavouras — segue o destino dos ventos.
Na referida lei, a expressão “um recurso natural limitado” entrou por claro intuito demagógico, dando a entender que a água da terra está acabando e que são necessárias apressadas providências. E o arcabouço das “providências” está ali, bem armado através de seus 57 artigos, num emaranhado de normas com segundas intenções.
O que na verdade se verá de imediato é o aumento do custo de vida, de forma gradual, conforme prevê o plano arquitetado pela conhecida súcia que então governava o Brasil. Isto é mais do que óbvio, pois o agricultor que irriga suas lavouras, ao pagar pela água, repassará a despesa aos consumidores. Além disso, todos os cidadãos futuramente vão pagar mais caro pela água tratada. Por enquanto, pagamos apenas pelo tratamento.

A ÁGUA É DO POVO

Contudo, a água é de todo o planeta. Não tem morada fixa em país algum. Tanto o ar quanto a água são bens da natureza. Nenhum deles pode ser tomado como mercadoria, por quem quer que seja. A Constituição diz que as águas são do povo. Logo, o governo está vendendo ao povo o que já pertence ao próprio povo. Eis um ato de grave traição.
A Lei 9.433/97 é uma sofisticada arma de assalto ao bolso da sociedade. Os supostos objetivos de “defesa do meio ambiente e do interesse público” não passam de embuste para tentar justificar o saque. Para a defesa do meio ambiente, já temos 37 leis, 10 decretos-leis e 200 decretos, aproximadamente, complementados por atos menores — além dos inúmeros acordos, protocolos e convenções internacionais.
E a famigerada lei foi precedida por ardilosa campanha na mídia venal, fazendo crer que o globo terrestre não mais se compunha de ¾ de água e ¼ de terra firme, e que dentro de pouco tempo estaríamos sem água para beber caso não fossem tomadas imediatas providências. Só não explicaram o que está sendo feito da água do planeta, o que está ocorrendo com ela, se está sendo decomposta por processos desconhecidos, ou emigrando para Marte ou Plutão. O certo é que a campanha já fazia parte daquilo que o governo estava planejando.
Essa lei foi aprovada por um Congresso submisso, movido por interesses escusos da camarilha que comandava o Executivo, então inteiramente subordinado aos desígnios de certos grupos estrangeiros. Embora sancionada por Fernando Henrique Cardoso, seu conteúdo foi introduzido em sua mente pelos lacaios do Fundo Monetário Internacional (FMI).
Cardoso foi “vítima” de uma lavagem cerebral tão competente que age inteiramente de acordo com a nacionalidade dos que o sugestionaram. Foi cúmplice de uma poderosa gangue que vive de sugar os recursos dos países e consegue submetê-los através de um perverso processo de endividamento crescente.
O projeto da água foi arquitetado diante da certeza daquela gangue de que futuramente o dinheiro da arrecadação tributária mal daria para cobrir os gastos com parte dos juros das dívidas contratadas. Como o Governo necessita de recursos para cobrir suas despesas normais (e até para patrocinar suas campanhas na mídia), o jeito mais prático seria vender as águas dos rios, dos córregos, dos ribeirões, dos lençóis subterrâneos... Qualquer água! Uma fonte inesgotável de recursos. Um projeto de longo alcance, de implementação gradual para não causar impacto politicamente inconveniente. Assim, os juros ficariam com os impostos e as Agências de Água cobririam as despesas públicas.

O QUE DIZ A LEI

Quanto às águas, a Constituição Federal estabelece:
Art. 20. São bens da União:
III – os lagos, rios e quaisquer correntes de água em terrenos de seu domínio, ou que banhem mais de um Estado, sirvam de limites com outros países, ou se estendam a território estrangeiro ou dele provenham, bem como os terrenos marginais e as praias fluviais;
Art. 21. Compete à União:
IXI – instituir sistema nacional de gerenciamento de recursos hídricos e definir critérios de outorga de direitos de seu uso;
E mais adiante:
Art. 26. Incluem-se entre os bens dos Estados:
I – as águas superficiais ou subterrâneas, fluentes, emergentes e em depósito, ressalvadas, neste caso, na forma da lei, as decorrentes de obras da União;
É evidente que estas disposições constituem instrumento do Estado para a defesa do interesse público, não autorizando dotar a água de valor econômico — o que equivale transformá-la em mercadoria.
Face ao que foi exposto (considerando ainda que o “esquema”, por incrível que pareça, não conseguiu eleger José Serra), o novo governo tem obrigação de revogar a malfadada Lei 9.433; revogar in totum, pois toda ela gira em torno da venda das águas. É inconcebível que este governo esteja com a intenção de se aproveitar dela. E mesmo que não haja tal intenção, a coisa não pode simplesmente ficar como está, pois esta lei não é o que parece ser, podendo se converter em arma perigosíssima nas mãos de um governo salafrário.
É preocupante o fato de que o novo governo tenha “escolhido” para comandar o Banco Central um banqueiro ianque (o homem nasceu em Goiás, mas sua alma é de lá), com o objetivo já declarado de tornar aquela instituição um país independente dentro do Brasil.

*Muniz do Bomfim Borges é auditor fiscal do Estado, aposentado em Goiânia-GO.

ÁGUA:PROPRIEDADE PRIVADA

Em alguns lugares do mundo, água tem dono - e quem quiser usar precisa pagar caro. Saiba por que devemos fazer de tudo para evitar a privatização dos recursos hídricos.

POR RAQUEL SODRÉ
2K
A água está acabando. Mas antes de acabar, ela vai ficar mais rara. E cara. Em algumas regiões do planeta, água já vale ouro - e tem gente ganhando muito dinheiro com isso. Quando a água deixa de ser um recurso natural público, direito de todos, e passa a ser um produto, acontece o que chamamos de “comoditização”.
Existem várias formas de comércio de água. “O que eu temo é que elas fiquem tão comuns que a gente nem perceba quando a água não for mais nossa, nem da comunidade, nem das próximas gerações”, diz Maude Barlow, co-fundadora do Blue Planet Project, organização que trabalha em nível internacional para garantir o direito humano à água. É preciso muita força nos remos para contrariar a maré da privatização.

A FONTE DO PROBLEMA

Não é de hoje que a água é tratada como produto. Conheça a história recente do fenômeno
A comoditização da água começou nos anos 1990, quando o Banco Mundial (organização financeira internacional que empresta dinheiro a países em desenvolvimento e economias fragilizadas) promoveu os serviços de água no mercado mundial. Naquela década, com o boom da privatização, o Banco convenceu alguns países que privatizar a distribuição de água para a população era uma boa forma de arrecadar fundos. Nos países que decidiram adotar essa prática, o Estado ainda era o proprietário da água, mas eram empresas privadas que cuidavam de sua distribuição para a população (e eram donas também das instalações necessárias para o serviço). Eram as chamadas “parcerias público-privadas” nos serviços de água.
O problema disso era que, para ter lucro, as empresas que dominavam o serviço subiram os preços da água que chegava às torneiras das pessoas. O povo sentiu no bolso e protestou. A insatisfação fez com que várias cidades comprassem de volta o direito de assumir o controle da água. “Só na França, 40 municípios, incluindo Paris, tornaram a água pública novamente”, diz Barlow.
Além do surgimento das parcerias público-privadas para a gestão da água, os anos 1990 trouxeram a moda da água mineral (nas décadas anteriores, água engarrafada era luxo). Com o passar do tempo, o costume ficou ainda mais popular. “Chegamos ao ponto de ter algo como 260 bilhões de litros de água engarrafada em garrafas de plástico no ano passado. Há países que acham que não precisam oferecer um serviço de água limpa para os cidadãos, porque as pessoas podem simplesmente comprar água engarrafada”, diz Barlow.
Outra forma de privatizar e restringir o acesso à água são os chamados "water tradings" (expressão em inglês para “trocas de água”) que funcionam mais ou menos assim: um país emite licenças para o acesso à água (por mineradoras, por empresas de água mineral, por agronegócios etc). Então, essas licenças são convertidas em direito à propriedade. Assim, as empresas passam a poder comprar e vender esse direito à água no livre mercado - como se fosse soja ou petróleo. O Chile e alguns estados dos EUA são exemplos de lugares que fizeram isso.
A Austrália também fez water tradings, e lá o sistema foi um completo desastre. Mas, quando ele surgiu, em 1994, parecia promissor. O país passava por períodos de seca na época, e o governo pensou que os water tradings serviriam como incentivo para que empresas e agronegócios economizassem água, pois, dessa maneira, a água que sobrasse podia ser vendida. Mas o que aconteceu de verdade foi que as grandes empresas engoliram as pequenas e os grandes agronegócios arrasaram os pequenos produtores. Entraram em jogo também os grandes investidores, e depois os investidores internacionais.
“O preço da água subiu dramaticamente em dez anos, ao ponto de surgirem as figuras de cowboys corretores de água, que fizeram rios de dinheiro”, conta Barlow. Foi mais ou menos como a bolha imobiliária que, segundo especialistas, vivemos agora. Só que, em vez de a especulação ser em cima de imóveis, era em cima de fontes de água. O resultado foi que, quando o governo federal quis comprar de volta os direitos sobre a água do país para salvar da seca a bacia Murray-Darling, não conseguiu pagar o preço que as empresas cobravam.
A água também pode ser comprada por meio dos “land and water grabs” (ou “‘abocanhados’ de terra e água”). Nos acordos desse tipo, uma empresa ou um governo rico compra grandes quantidades de terra em um país mais pobre e reivindica o direito à posse da água dentro daquele terreno. Segundo Maude, na África, há um território equivalente a três Grã Bretanhas que foi comprado por países ricos, investidores internacionais, fundos de cobertura, planos públicos de aposentadoria, dentre outros. “É uma nova forma de colonialismo”, comenta.
Normalmente, a água comprada em um país permanece dentro daquele país, mas legalmente pertence a um agente de fora. Atualmente, alguns poucos países do Oriente Médio compram água do exterior, mas a questão, segundo Maude, é muito controversa. No Canadá, em 1998, o governo de Ontario deu uma permissão para que uma empresa privada vendesse água do Lago Superior para abastecimento e enviasse para a Ásia para engarrafamento. O governo dos Estados Unidos interveio e Ontario cancelou a licença. Atualmente, somente em situações de emergência - como as frequentes secas sofridas pelo sudeste dos EUA - a água é transportada em caminhões pipa para o país vizinho.

ÁGUA VIRTUAL

Você consome muito mais água do que imagina
Na hora de calcular a água que vai de um país para o outro, também é importante por na conta a “água virtual”. Trata-se de todos os recursos hídricos gastos para a produção de uma coisa. “Se você come um bife no almoço, estará consumindo uma quantidade inacreditável de água [veja mais no nosso quiz], que foi necessária para criar o gado e preparar a carne. O Brasil é um grande exportador de água virtual em biocombustíveis, carne e arroz”, diz Maude Barlow.
Saber mais sobre a água virtual comercializada em cada produto não é desperdício. A conscientização serve para deixar mais clara a situação do comércio internacional de água. No passado, a pressão popular foi imprescindível para desacelerar a privatização e pode voltar a ser um grande trunfo na luta pelo direito à água. Para Maude Barlow, os cidadãos precisam fazer sua parte para garantir que, no futuro, a água não esteja completamente nas mãos de empresas. “Se essa tendência não parar, veremos mais e mais gente morrer por falta de água. Agora mesmo, mais crianças morrem de doenças trazidas pela água do que de qualquer forma de violência, até guerras”, diz a autora.
O problema também é dos brasileiros. Apesar de termos uma das maiores bacias hidrográficas do mundo, o Brasil também sofrerá as consequências de nosso uso desenfreado de água se não tomarmos cuidado. “Digo sempre que vocês precisam olhar para essas políticas [de acesso à água], porque vocês têm secas terríveis em seu país. Vocês estão secando a água de superfície rápido demais. O Brasil, como o Canadá, tem o mito da abundância e pensa que sua água nunca irá acabar. Mas isso não é verdade, e secas como as que estamos vendo em São Paulo, por exemplo, mostram isso”, conclui Maude.

GRÁFICO ÁGUA VIRTUAL

Veja quantos litros de água são usados para se obterem diferentes produtos:
*Uma pessoa bebe de 2 a 4 litros de água por dia